Brasília-DF,
22/JUN/2017

Comédia musical funerária provoca espanto em Paulínia

Filme Sinfonia da Necrópole, da paulista Juliana Rojas, é assustadoramente engraçado e bonito

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Diário de Pernambuco Publicação:24/07/2014 10:18
 (Avoa Filmes/ Divulgação )
"Mulher adora coveiro, rapaz..." Essa frase está presente em um dos diálogos de Sinfonia da Necrópole, filme da cineasta paulista Juliana Rojas, bastante aplaudido na noite de sexta no Paulínia Film Fest. Trata-se de um suspense cômico musical, ambientado em um cemitério.

Sob uma direção precisa ao orquestrar cenas cantadas e ao mesmo tempo coreografadas, a criatividade do roteiro é manifestada menos em reviravoltas imprevisíveis e mais nos desdobramentos da (re?) encarnação do mal anunciado desde a primeira cena, quando Deodato, um aprendiz de coveiro, após ter desmaiado no meio de um enterro, acorda e dá de cara com uma estátua cemiterial ao som de uma trilha sonora mórbida.

A analogia entre o cemitério e as grandes cidades está presente não só no título (referência ao filme clássico Berlim: Sinfonia da Metrópole), mas surge também já na primeira imagem, onde o enquadramento sobrepõe lápides aos edifícios de São Paulo que aparecem ao fundo. A metáfora alcança ainda o tema da verticalização quando os personagens recebem a notícia de que túmulos antigos serão demolidos para a construção de torres com gavetas.

Os trechos musicais transitam por gêneros diversos, com direito a um samba no estilo de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa (a cultura paulistana está fortemente manifestada em diversos aspectos do filme). Detalhes inventivos pontuam as sequências, como um gato preto que surge de repente, uma neblina que encerra uma coreografia ou a voz acelerada do outro lado de uma ligação telefônica.

O elenco também está em um tom adequado, sem pretensões naturalistas e com alguns excessos teatrais pontuais. Um dos personagens é um padre que gosta de comer hóstias que ainda não foram abençoadas, como se fossem salgadinhos. Diante de uma suspeita de invasão noturna, o administrador do cemitério exclama: "Malditos góticos!".

A morte é uma questão interpretada de diferentes formas em cada sociedade,cultura ou religião. Juliana brinca com o tema, mas de maneira saudável e responsável, sem cair no desrespeito. Quando subiu ao palco do Theatro Municipal de Paulínia para apresentar o filme, ela chegou a interromper seu
discurso para chorar ao lembrar do pai que perdeu no início de 2014, a quem dedicou o filme. "Dói porque a gente está vivo", diz um dos personagens.

INADEQUAÇÃO NEBULOSA

Neblina foi o "filme" projetado antes de Sinfonia da Necrópole. Ao longo do documentário, bonitas imagens das ruínas da antiga vila de Paranapiacaba sob a névoa são interrompidas por elementos que estragam as boas intenções dos diretores Daniel Pátaro e Fernanda Machado: A maioria dos depoimentos de moradores das redondezas são vagos, sem contribuir com informações pertinentes; a narração em off é imprecisa, com um didatismo de nível ginasial associado a uma prolixa falta de objetividade; e imagens de arquivo deslocadas no tempo e no epaço invadem a tela sem uma costura adequada. O longa-metragem, que funcionaria melhor como um curta com suas boas imagens documentais de lugares abandonados (um realismo fantástico pós-apocalíptico), praticamente
manchou a programação do festival ao aparentemente ter sido selecionado apenas por ser uma produção de Paulínia, sem critérios devidamente cinematográficos.

FILME-PERSONAGEM-PAÍS
O documentário Aprendi a Jogar com Você, do cineasta Murilo Salles (Todos os Corações do Mundo), é interessante por retratar um novo tipo de personagem presente no cotidiano dos brasileiros. Trabalhador e empresário à margem dos sistemas oficiais (sem regularização, com uma clandestinidade autenticada por prefeituras), o DJ Duda agencia bandas e cantores, produz músicas, prensa CDs faz o design dos encartes dos discos e cartazes dos shows, distribui seus lançamentos com seu próprio carro, promove festas, organiza a divulgação de seus eventos e administra imóveis, entre outras atividades profissionais e artísticas que podem ser enumeradas indefinidamente. É um filme de linguagem direta, sem pretensões ou inovações de linguagem, que dá sua contribuição pelo recorte sócio-antropológico no contexto de um país em constante transformação, mas ainda preso à informalidade sem perder a criatividade.

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