Brasília-DF,
11/DEZ/2017

Novo filme de Kleber Mendonça Filho apresenta uma mulher batalhadora

Com forte composição, 'Aquarius' conta a história da jornalista Clara e representou o Brasil no Festival de Cannes

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Ricardo Daehn Publicação:02/09/2016 06:05Atualização:01/09/2016 16:23
Sonia Braga volta a protagonizar um longa nacional (Reprodução/Internet)
Sonia Braga volta a protagonizar um longa nacional

Existe uma memória seletiva intrigante nas primeiras cenas de Aquarius, nas quais uma setentona enxuta (Thaia Perez, em sensível composição) é saudada por parentes ingênuos. Homenageada, ela se abstrai da festa e louva, no íntimo, os grandes prazeres sexuais dos quais gozou.

Tal qual uma gaveta trancafiada que, em cena, parece acondicionar inenarráveis segredos, o perfeccionista roteiro de Kleber Mendonça vai sendo desdobrado. É num apartamento estiloso — não por acaso decorado com pôster do mutilado personagem Barry Lyndon —  que vive a razão de ser de Aquarius: a determinada personagem de Sonia Braga, Clara. Um bálsamo no retrato cinematográfico da dita melhor idade.

Produto de revoluções culturais, a jornalista Clara sabe sobreviver e afrontar o que joga contra a visão de mundo dela. “Prefiro dar um câncer do que ter um”, chega a bradar, em momento decisivo da trama. Num debate que edifica, o mesmo diretor de O som ao redor nada de braçada.
 
 
Cada vez mais consciente da própria insegurança, Clara é remanescente de um prédio extremamente visado por uma empresa de construção sedenta de lucros, em possível expansão na orla de Boa Viagem, que bem poderia acoplar pretenso nome pomposo roubado de prédio estrangeiro.

Do exterior, o filme, que, por sinal, foi concorrente brasileiro no Festival de Cannes, toma emprestado patrimônios como Fat bottomed girls (do Queen) e a filosofia pacifista de John Lennon (objeto de adoração de Clara). No resto, Aquarius transpira brasilidade, com especial uso de aprimorada trilha sonora (que acolhe, entre outras, Nervos de aço, Pai e mãe, Um jeito estúpido de te amar e Sufoco).
 
Veja aqui as sessões desse filme. 
 
Contemporaneidade
Antenado com o contemporâneo, o roteiro fecha o cerco para a elite (incapaz de “entrar em fila” ou de apresentar “formação humana”). Impera, ao redor de Clara, o “caráter” imposto pelo dinheiro. Vista como um “misto de velhinha com criança”, a personagem de Sonia Braga, por momentos, parece habitar o mais inconformado dos exemplares da cinematografia de Sergio Bianchi.

Sob uma direção de arte de tirar fôlego, Aquarius encanta por desviar de convenções narrativas. Entre o que seja vintage ou velho (em irônica definição de Clara), apegada aos universos da fita cassete e do LP, a protagonista desvia do mundo em que “já há medo demais em muita coisa” (em sentença do personagem de Irandhir Santos). Prefere lutar pelo patrimônio maior do que o material, repleto de dignidade e cordialidade (numa citação à obra de Villa-Lobos).

Para além das críticas sociais, em que racismo rima com cinismo, Kleber Mendonça solidamente dá identidade a Clara, numa era de homens “disponíveis” e de terrorismo mental. Batalhadora, Clara vencerá?

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