Brasília-DF,
17/JAN/2019

Food trucks da cidade oferecem pratos com viés gourmet e preço acessível

Pontos de comida de qualidade em formato nômade ocupam as ruas de Brasília

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Rebeca Oliveira Publicação:23/09/2016 07:00Atualização:23/09/2016 11:55

 (Breno Fortes/CB/D.A Press)

 

Quando a moda começou em Brasília, há cerca de três anos, muita gente duvidou da longevidade dos food trucks. Quem desacreditou dos caminhões que servem comida sob rodas com viés gourmetizado e preço em conta mordeu a língua. O mercado está aquecido e não param de surgir novas propostas. Tem de tudo: de comida vegana a hambúrguer em que a carne é protagonista, de massa italiana sofisticada a brigadeiro, de comida mexicana a drinques brasileiríssimos.

A principal vantagem — diferente dos ambulantes a qual estávamos acostumados — é o uso de ingredientes selecionados por um preço convidativo, que circula entre R$ 10 e R$ 25. Essa semana, o Divirta-se Mais promoveu um grande encontro entre seis trucks e três bikes – uma variação que segue o mesmo conceito, com a vantagem de ser ecologicamente sustentável.

Curiosamente, muitos empresários que investiam apenas no formato tradicional — lojas físicas —, embarcaram no modelo e, hoje, têm no caminhão uma salvaguarda econômica. Foi o que aconteceu com Alexandre de Souza, proprietário do Geleia Food Truck, que engolia a crise a seco e cogitava fechar o ponto no Gama quando montou um caminhão. De lá para cá, vendeu mais de 135 mil hambúrgueres, lançou mais dois caminhões e está em vias de colocar nas ruas outros três trucks.

Situação parecida aconteceu com Agenor Maia, nome à frente do restaurante Olivae e, agora, do Olivae Comedoria. “A crise é muito maior do que se imagina. Não me excluo disso. Comecei a vislumbrar a possibilidade de ir as ruas com certo receio. Vi que não era um modismo e o retorno do público é grande”, comenta o chef, que foi incentivado por Marcello Piucco, do El Negro Food Truck, a acreditar no formato móvel, popular e, ao que tudo indica, blindado contra intempéries financeiras.

Burger popular

André Hallane e burger original com batatas rústicas: truck salvou Geleia da crise (Breno Fortes/CB/D.A Press)
André Hallane e burger original com batatas rústicas: truck salvou Geleia da crise

 

Quando montou o Geleia Food Truck, há um ano e meio, o empresário Alexandre de Souza amargava os efeitos da famigerada crise. O ponto físico, no Gama, estava prestes a fechar as pontas. Ele, então, resolveu levar as criações para as ruas de Brasília.

O sucesso foi estrondoso e salvou a empresa. Desde que iniciou o modelo do negócio, foram vendidos 135 mil sanduíches, e contando. O mais procurado pelos clientes, que costumam formar longas filas na frente dos caminhões alaranjados (são três, no total) responde pelo nome de original (R$ 20). Assim é chamado o hambúrguer com blend de fraldinha e costela, cheddar, cebola caramelizada e maionese caseira servido em pão australiano exclusivo.

“Não usamos farinha de trigo nem ovo, ingredientes costumeiros para dar liga ao hambúrguer. O que une o blend é a gordura da costela”, entrega André Hallane, braço-direito de Alexandre na empreitada. Outro item costumeiro e que faz do Geleia um dos trucks mais lembrado pelos brasilienses é a batata rústica (R$ 10), temperada com páprica defumada espanhola e alecrim fresco, em porção de 200g.

Italianíssimo e acessível

 

Agenor Maia, do Olivae Comedoria, finaliza espaguete à carbonara dentro de um quejo grana padano, repetindo gesto comum no restaurante convencional
 (CBPFOT150920160641.jpg)
Agenor Maia, do Olivae Comedoria, finaliza espaguete à carbonara dentro de um quejo grana padano, repetindo gesto comum no restaurante convencional
 

 

À frente do restaurante Olivae, na 405 Sul, Agenor Maia via com certa desconfiança o segmento dos food trucks. Embora não desacreditasse no formato (ele até fazia eventos em parceria com alguns deles, como a kombi Korina, de cervejas especiais), demorou a pensar nele como uma possibilidade de negócio. Só decidiu se arriscar na cozinha sob rodas quando notou que, de um possível modismo, os trucks passaram a fazer parte da agenda da cidade, consolidando-se como ótima opção financeira, inclusive entre amigos – como Marcello Piucco, do El Negro Food Truck.


Nas ruas há dois meses, o caminhão de Agenor é uma extensão despojada do outro estabelecimento que comanda. Apesar do tom informal, os preparos que saem da cozinha do Olivae Comedoria figuram entre os mais sofisticados encontrados ao ar livre. Assim como acontece no ponto físico, o espaguete à carborana – adaptado para o truck com bacon e gema pasteurizada industrial – é finalizado na frente do freguês dentro de um enorme queijo grana padano, fiel à receita original que passa longe de creme de leite.


O prato custa R$ 20 e representa metade de todos os pedidos feitos no balcão do truck. O restante se divide entre o espaguete com almôndegas artesanais ao molho de tomate (R$ 20) e o risoto de filé-mignon com cogumelos shitake e paris frescos (R$ 25). Até na hora de escolher as bebidas que serviria, Maia manteve o padrão refinado. A taça de vinho tinto seco custa R$ 12 e harmoniza com as receitas do chef.

Pizza com requinte

 

Vinícius e a mulher, Raquel, à frente de forno especial que atinge 450º C: com ingredientes nobres, pizzas são assadas em menos de dois minutos (Breno Fortes/CB/D.A Press)
Vinícius e a mulher, Raquel, à frente de forno especial que atinge 450º C: com ingredientes nobres, pizzas são assadas em menos de dois minutos

 

Faz cinco anos que Vinícius Campos e Raquel Campos, do Vinny’s Pizza, aprendeu, em fóruns americanos na internet, a preparar a redonda aos moldes italianos. Na web, trocavam informações com nomes de referência no setor, como o brasileiro André Guidon, eleito o melhor pizzaiolo do mundo em concurso realizado na Itália há dois anos.

Das receitas elaboradas de forma amadora à profissionalização, se passaram quase três anos. Hoje, o casal é conhecido por apresentar ao público as redonda com requinte. As pizzas seguem o savoir-faire de Nápoles, na Itália. São assadas em um forno a gás especial que atinge temperaturas de até 450º C e que permitem que a pizza seja finalizada em 90 segundos.

A que melhor ilustra as técnicas do casal é a margherita especial napolitana, com muçarela de búfala, tomatinho cereja, molho pomodoro pelati italiano e manjericão fresco (R$ 20). A versão mais vendida, entretanto, é feita com a muçarela comum, por R$ 16.

“A farinha é italiana (do tipo 00) e o molho também é importado de Nápoles”, comenta Raquel Campos. Outro ponto de destaque, ela acrescenta, é a fermentação longa. “Pode demorar até 24h e torna mais fácil a digestão”, finaliza.

Parrilla de sucesso

 

Marcello Piucco exercita veia descontraída no El Negro Food Truck
 (Breno Fortes/CB/D.A Press)
Marcello Piucco exercita veia descontraída no El Negro Food Truck

 

Sanduíches elaborados na parrilla (churrasqueira porteña que conserva melhor o sabor da carne) são a especialidade do El Negro Food Truck. A iniciativa de fazer uma versão móvel e com menu mais descontraído da conhecida casa de carnes da cidade partiu do chef Marcello Piucco, em fevereiro. O cardápio é menor mas, curiosamente, ele atende a mais pessoas no caminhão do que no ponto fixo.


O item que mais atrai atenção dos glutões é a hamburguesa chimichurri (composta por blend de carne angus, chimichurri com pimenta jalapeño, queijo provolone, alface e tomate, a R$ 20). Na sequência, aparece a versão com o mesmo blend mais barbecue caseiro, cebola caramelizada, cheddar e bacon (R$ 20) e, depois, o sanduíche de vacio (R$ 25), com o corte argentino equivalente a fraldinha mais queijo provolone e chimichurri.


“Em um dia de grande movimento, vendemos mil unidades dos quitutes”, comenta o chef, comprovando o apelo das receitas com o público local. A iniciativa deu tão certo que um segundo carro já está circulando.

Da terra da Frida

 

Giselle Valério e Miguel Lopes tem dois caminhões: Ándale é especializado em comida mexicana
 (Breno Fortes/CB/D.A Press)
Giselle Valério e Miguel Lopes tem dois caminhões: Ándale é especializado em comida mexicana
 

 

Em 2014, Brasília foi surpreendida quando um caminhão vermelho passou a vender hambúrguer gourmet de forma itinerante. Por trás do volante e da ideia ousada estava o casal Giselle Valério e Miguel Lopes. O Burger Truck foi o primeiro caminhão a operar na cidade. Pouca gente sabe, mas o objetivo inicial não era vender o preparo de origem americana, e sim receitas do país vizinho, o México.

Um ano depois, o Ándale Tacos finalmente saiu do papel. “Ele seria o truck inicial, mas preferimos começar por um prato mais popular”, explica Giselle. Hoje, realizada, ela opera nas duas frentes. No caminhão especializado na comida da terra da pintora Frida Kahlo, as receitas são autênticas e artesanais.

A mais icônica delas são os tacos al pastor (R$ 10), como é batizada a receita de lombo de porco marinado em temperos mexicanos servidos em tortilla de milho com cebola e coentro. A porção de chilli com nachos assados também é concorrida e sai por R$ 16. Em vendas, fica à frente da guacamole (R$ 18), a conhecida mistura de abacate, cebola roxa, tomate, suco de limão e pimentas especiais.

Vegano delicioso

 

A família Souza criou primeiro food truck vegano da cidade
A família Souza criou primeiro food truck vegano da cidade
 

 

Nas cozinhas móveis, os comensais encontravam quase todo tipo de comida. Faltava, entretanto, um caminhão que oferecesse pratos veganos elaborados de maneira autêntica – quando, na cozinha, não entra nenhum outro ingrediente de origem animal, bem mais que simplesmente retirar a carne ou queijo das receitas comuns. Até que, há um ano e dois meses, a família Souza, à frente do Apetit Natural, resolveu ocupar as ruas.
“Seguimos essa filosofia há mais de 20 anos”, se orgulha Phelipe de Souza, que divide o comando do Apetit Natural com o pai, João José de Souza, e a mãe, Sonia Maria que é quem põem a mão na massa. É dela a autoria de delícias como o churrasco vegano – feito de proteína do trigo – com farofa, vinagrete e mandioca cozida. O prato custa R$ 20, mesmo preço da moqueca de palmito e da feijoada, que tem cogumelo shimeji no lugar dos conhecidos cortes suínos.

“Ainda existe o preconceito por parte de quem come carne de provar o novo, sair da zona de conforto. Por outro lado, a conscientização alimentar e a preocupação com o futuro do planeta têm aumentado, o que gera maior interesse na comida vegana”, acredita Phelipe.

 

Bem mais que uma bike

 

Kombinado Gastronomia de Rua conta com estrutura que comporta dois tricilos, um com barril de drinques e outro para pratos quentes
Kombinado Gastronomia de Rua conta com estrutura que comporta dois tricilos, um com barril de drinques e outro para pratos quentes

 

Desde que o movimento dos food trucks começou a bombar em Brasília, alguns chefs começaram a estudar a possibilidade de usufruir do melhor o formato – mobilidade, cozinha compacta e acesso direto ao público – de maneira mais limpa e sustentável. Foi assim que o mercado de food bikes nasceu. Atualmente, mais de 20 expositores trabalham dessa maneira por aqui.

Um deles destoa dos demais pela suntuosidade: o Kombinado Gastronomia de Rua. A bike de cor verde militar traciona dois triciclos. Em cima, uma estrutura comporta um enorme barril que, ao ser aberto, revela ingredientes para preparos de drinques. Carlos Braga é quem responde pelas receitas. As preferidas são a caipirinha de frutas amarelas (maracujá, abacaxi e manga, por R$ 18), feita com a cachaça mineira Germana e o nega maluca (R$ 18), que tem o mesmo destilado mais limão e rapadura.

No outro triciclo, as bebidas dão lugar a pratos que têm no chef Rodrigo Oliveira, do restaurante paulista Mocotó, a maior referência. O kombinado mulatinho, com caldo de feijão, arroz, tiras de costela de porco, crocante de calabresa e de couve, farofa de alho e vinagrete de pêra com manga. Para acompanhar, espetinho de picanha (R$ 15).
Legenda: Kombinado Gastronomia de Rua conta com estrutura que comporta dois tricilos, um com barril de drinques e outro para pratos quentes

Brownie para todos os gostos

 

Fusão de brownie com bicicleta escancara as intenções da confeiteira Thaís Marega
Fusão de brownie com bicicleta escancara as intenções da confeiteira Thaís Marega
 

 

Browniecleta. A fusão do nome do bolinho americano com a palavra bicicleta escancara as intenções da confeiteira Thaís Marega com o projeto que roda pela capital desde 2014. Ela, que se denomina a primeira food bike do quadrado, trabalhava com confeitaria sob encomenda até sentir a necessidade de comprar um truck para fazer vendas diretas e divulgar a marca. Os altos custos forçaram-na a mudar os planos e optar pela magrela, tendência que estava em voga em São Paulo e no Rio de Janeiro.

“Precisava de uma portinha para o mundo. Como não encontrei a porta, abri uma janela”, brinca a confeiteira. No rol de doçuras que prepara está o brownie de chocolate belga 70% cacau com mix de castanhas (R$ 6, 70g), que pode ser consumido no formato convencional ou no pote, quando, ao quitute de origem americana, é acrescido doce de leite, morango com leite em pó ou coco (R$ 6, 130g).

O brownie tem, ainda, a versão comum, de chocolate meio amargo (R$ 6), que a freguesia pode incrementar com uma cobertura (a escolher entre brigadeiro, leite em pó e doce de leite) e um topping, entre marshmallow maçaricado, crocante de amendoim, bolas de chocolate e paçoquinha. Quem não conseguir acompanhar a agenda da doceira pode comprá-los em alguns restaurantes da cidade, como o Naturetto (403 Sul), Green’s (302 Norte), Marzuk (106 Sul), Niwa (Setor Hoteleiro Sul) e Café Náutico (Pontão do Lago Sul).

Brigadeiro gourmet na magrela

 

Arquiteto, Uno Matos Correia projetou a bike do Mistura que agrada, que toca em parceria com Luana Pereira Gagliarti
Arquiteto, Uno Matos Correia projetou a bike do Mistura que agrada, que toca em parceria com Luana Pereira Gagliarti

 

Assim como o setor de food trucks, a febre de brigadeiros gourmet foi alvo de críticas quando a ideia foi lançada. Passado o frenesi inicial, confeiteiros que se dedicaram a reinventar o mais brasileiro dos docinhos se sentem realizados com a escolha que fizeram.


Luana Pereira Gagliarti e Uno Matos Correia, da food bike Mistura que agrada, trabalham com a sobremesa há dez anos. “Começamos com os básicos: ao leite e amargo, por exemplo, mas o cenário mudou e, atualmente, não posso ficar sem o de Halls”, exemplifica Luana Pereira. Um item interessante é o de crème brûlée, maçaricado na hora. “O cliente o consome quentinho”, conta Luana.

Antes de enveredar pelo segmento de food bikes, o casal vendia na base do boca a boca em pontos comerciais da cidade. O peso da caixa recheada de quitutes começou a incomodar e Uno projetou uma bike com visual retrô. Mais que se adaptar ao mercado, o pedido atendia a uma necessidade física e logística.

Hoje, engrossam a lista de vendedores sob rodas – que, diferentemente do comércio convencional, têm por marca a cena colaborativa. “Certa vez, fizemos um evento para cobrir as despesas médicas de um chef quem estava hospitalizado. Em um mundo como o de hoje, é bonito ver pessoas se ajudando financeiramente em prol da amizade. Essa parceira e cuidado existe, e não tem preço”, afirma a jovem.

 

Onde comer 

Ándale Tacos (99117-1317), aberto de quarta a sexta, das 18h às 22h.

Apetit Natural – Alimentação Vegana (98226-0907), aberto de sábado a quinta, das 19h às 22h30.

Browniecleta (98140-3134), aberto das 9h às 18h, de segunda a sexta; e sábado, das 9h às 14h.

El Negro Food Truck (98301-1222), aberto de terça a quinta, das 17h30 às 22h30; e de sexta a domingo, das 17h30 às 23h.

Geleia Food Truck (98417-2475), aberto diariamente, das 17h às 23h.

Kombinado Gastronomia de Rua (99101-0773), aberto de terça a sábado, das 19h às 23h.

Mistura que agrada (98159-8660), aberto diariamente, das 18h às 22h30.

Olivae Comedoria (98111-5402), aberto de terça a domingo, das 18h às 23h.

Vinny’s Pizza (99926-1463), aberto de terça a domingo, das 17h30 às 22h30. 

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