Brasília-DF,
20/OUT/2017

Paulo Pestana relata em crônica como é ter um amigo celebridade

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Publicação:21/06/2013 06:00Atualização:20/06/2013 17:48

Paulo Pestana  •  papestana@uol.com.br

 

Eu tenho um amigo celebridade. De verdade, desses que a Caras quer levar pra ilha. Ou pro Castelo. Sei que uma informação como essa desperta inveja e outros sentimentos que só podem ser dissipados com sal grosso, pé de pato, mangalô três vezes, mas ainda assim vale o risco, preciso contar. Até porque ter um amigo celebridade também faz de mim uma celebridade; pelo menos uma demi-celebridade, certo?

Ruim é que Brasília não trata bem as celebridades. A gente parece não se dar conta de como as fofocas coletivas são importantes para o desenvolvimento do cidadão. Antes, era comum fazer fuxico do marido da vizinha, da mulher do padeiro; mas eis que inventaram as celebridades — pessoas sem nenhuma importância, mas que assumem um papel fundamental em nossas vidas: alimentar a nossa sede de maledicência e a nossa fome de leviandade.


Celebridade serve para isso.


'O parlamentar pediu para fazer uma foto, abriu o melhor sorriso e saiu feliz da vida', conta Pestana. (Arquivo Pessoal)
"O parlamentar pediu para fazer uma foto, abriu o melhor sorriso e saiu feliz da vida", conta Pestana.
É uma vida de emoções — o meu amigo celebridade é perseguido por fotógrafos que se escondem por trás de árvores e postes para tentar um flagrante, sempre com o foco ajustado nele. Isso em outra cidade, mundana. Não aqui. Em Brasília, as pessoas passam por ele com certo desdém, quase enfado; nem sequer fungam para saber que perfume ele prefere usar à tarde e dar uma tuitada. É uma gente despreparada para o mundo moderno.


Mas, às vezes, a gente se surpreende. Estava com meu amigo celebridade tomando uma cervejinha, quando a moça o reconheceu e logo falou para a colega: “Ele bebe!” Não era uma exclamação qualquer. Era a constatação de uma descoberta, como um grumete no cestinho da gávea a gritar pela terra à vista. Devia ser turista a moça. Como o vereador cearense que se aproximou dele e perguntou: “O senhor é aquele, não é?”


Calejado, meu amigo disse que sim. Sem dizer o nome, porque celebridade não diz o nome. O parlamentar pediu para fazer uma foto, abriu o melhor sorriso e saiu feliz da vida. Os brasilienses em volta acharam graça; estão todos acostumados a tropeçar em deputados e ministros sem dar muita bola. Alguns extrapolam: “Lá vem aquele ministro chato de novo!”


Chocante foi quando uma amiga — essa ainda mais demi-celebridade que eu, porque se eu tenho um amigo celebridade, ela tem vários — levou um vencedor do Big Brother para a Quituart, a feirinha do Lago Norte; um não, dois. A moça que tinha ficado em segundo lugar, e estava na capa da Playboy do mês, estava lá também.


Estava eu me equilibrando num banquinho do Butiquim do Tuim quando senti um início de burburinho. Algumas pessoas tiraram fotos, cumprimentaram os dois, mas logo a vida voltou ao normal e as celebridades — esqueci o nome delas, que coisa! — sentaram-se e passaram a tarde em paz. Isso seria impossível em qualquer lugar que não fosse Brasília ou Katmandu. É zen ou blasé. Aqui, celebridade não tem vez.

Legenda: O parlamentar pediu para fazer uma foto, abriu o melhor sorriso e saiu feliz da vida

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