Brasília-DF,
18/OUT/2017

Paulo Pestana discute em crônica qual é o melhor acompanhamento para cerveja

'Andava muito para ir ao boteco - tinha o herético nome de Capela do Chope, às margens da velha EPTG - que nos atraía com camarões fritos de exagerada bitola', diz ele

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Publicação:05/07/2013 06:04Atualização:04/07/2013 17:25

 (Arquivo Pessoal)


A cizânia do camarão

Paulo Pestana - papestana@uol.com.br


Cabe até discussão sobre a companhia ideal para uma gelada. Mas eu tenho um fraco por camarões. E nem devia ser assim; um crustáceo quase causou a morte de um xará chegado, salvo, enfim, por uma dose de licor de menta que interrompeu a brutal intoxicação. Santo remédio.

Andava muito para ir ao boteco — tinha o herético nome de Capela do Chope, às margens da velha EPTG — que nos atraía com camarões fritos de exagerada bitola. Não há mais. Rosângela Rabello, a dona, se dedica hoje a línguas e rabos em seu bar na Quituart, Lago Norte — incluindo um pastel de rabada de primeira.

Andei muito mais. Pode parecer exagero cruzar quilômetros de dunas e lagoas pluviais para saborear um prato. Mas há muito que o tal camarão grelhado da Luíza atentava o juízo.

E ele só pode ser apreciado num restaurante localizado no coração dos lençóis maranhenses. Ludovico Ribondi — que andou por aquelas areias — provocava inveja. Aos amigos maranhenses eu não dava muito crédito: quem gosta daquele guaraná Jesus... Sei não.

A viagem, enfim, começa. De São Luís a Barreirinhas são 240km de estrada bem conservada, mas com obstáculos na forma de porcos, jegues e crianças que ficam soltos. De lá, toma-se uma lancha que serpenteia o Rio Preguiça por 40 quilômetros até a foz, onde está Atins, um povoado de pescadores, cercado de água — mar, rio, igarapé e lagoas. O tal camarão fica mais à frente, no Canto do Atins — mais sete quilômetros de praias e dunas, que devem ser percorridos a pé, a cavalo ou de jipe.

E vamos ao camarão da Luíza. Ou não. Ainda em Atins chega a informação da cizânia: Luiza e Magnólia, cunhadas, brigaram. Magnólia, diz a maledicência do local, foi a criadora do prato mais famoso do Canto do Atins, e Antonio, irmão de Luiza, marido de Magnólia, ergueu outro restaurante. Bem do lado. E agora?

Com a dúvida na cabeça e disposição nos pés, enfrentamos praias, mangues e dunas antes de chegarmos à encruzilhada: de um lado a Luíza, do outro, Magnólia. Entramos na Luíza; é difícil resistir a uma grife. Mas o restaurante do Antônio oferecia valor agregado: um redário — mudamos.

Veio, afinal, o camarão grelhado. Experiência é única. O camarão branco, comum na região, é cortado ao meio, limpo, marinado e grelhado — por cima, já ressecado pelo calor, um molho secreto é incorporado ao crustáceo. Parece conversa de degustador profissional, mas vários sabores parecem invadir a boca. Inesquecível.

O fato é que, se houvesse político sério no Brasil, o camarão da Luíza — ou da Magnólia — deveria ser elevado ao panteão dos patrimônios imateriais do Maranhão. Antes mesmo do tambor de crioula e do bumba meu boi. E do guaraná Jesus.

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