Brasília-DF,
20/OUT/2017

Paulo Pestana conta a história do músico Fernando Lopes, que encantou JK

Segundo o cronista, o presidente adorou e pediu bis; aliás, vários. Fernando virou habitué

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Publicação:12/07/2013 06:03Atualização:11/07/2013 17:06
Paulo Pestana relata a história de Fernando em crônica (Arquivo Pessoal)
Paulo Pestana relata a história de Fernando em crônica

Abaixo o Peixe vivo

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

O mundo é cheio de música chata. Tem até música boa que é chata. Mas, pode procurar, nenhuma delas bate o tal do Peixe vivo. É uma toada mineira que só resiste, porque alguém teve a pachorra de dizer que era a música favorita do fundador, JK. Nem isso era.

Se no princípio era o ermo, como escreveu Vinicius, entre um e outro pio de siriema havia espaço para música nas primeiras madrugadas brasilienses. Melhorou quando a Rádio Nacional começou as atividades, trazendo artistas consagrados que, depois de cantar para o éter, iam ao Catetinho.

Mas a emissora fez o próprio cast, importando artistas. Aqui surge o nosso personagem: nessa leva, há 54 anos, que chegou Fernando Lopes, um goiano de Piracanjuba, que estava vivendo em Inhumas — onde a noite era mais animada, conforme explica.

Cantor de boleros, Lopes conseguiu rapidamente espaço na emissora e, ainda recém-chegado, ouviu o maestro Isaac Colman pedir que vestisse uma roupinha melhor no dia seguinte: “Você vai cantar para o meu compadre.” O jovem cantor só estranhou, porque andava sempre na estica.

Alinhado, entrou na Kombi da emissora, onde já estavam o maestro e quatro músicos. A poeira não deixava ver para onde estavam indo e ninguém ousava perguntar; só quando pararam é que viram o Catetinho.

Num canto estava o violonista Dilermando Reis; ao lado, o caboclinho Silvio Caldas. Mas o abusado Fernando só tremeu nas pernas quando foi apresentado ao presidente — o tal compadre do maestro. “Ele canta aquelas músicas que você gosta”, disse Colman a JK.

E diante da seleta plateia, deu seu recado. Um bolero atrás do outro — La barca, Contigo en la distancia, Perfídia... Danado, Fernando Lopes tinha um ás na manga. Alguém já havia lhe dito que o presidente gostava de Granada, a velha e dramática canção mexicana que favorece os timbres fortes e extensos. E encerrou sua apresentação com ela. Caprichou.

O presidente adorou e pediu bis; aliás, vários. Fernando virou habitué. “O presidente gostava mesmo era de dançar e ninguém dança aquelas músicas que tocavam pra ele. E adorava Granada. Era a música favorita dele”, lembra. Bem melhor que o Peixe vivo.

A relação entre os dois ficou cada vez mais próxima. Mais tarde, Fernando Lopes ficou sabendo por outros que dona Sarah não gostava muito quando eles se encontravam: “Esse rapazinho fica levando Nonô pra perdição”, dizia ela.

Fernando Lopes mantém a voz firme que encantou o presidente. Aos 80 anos confessos — há quem diga que é gato; que esconde umas duas temporadas na algibeira — é presença permanente na roda musical do Bar do Grao, no último comércio da pista do Lago Norte, nos fins de semana.

Vai para conversar, leva sempre um odre cheio de pinga de Orizona (Goiás sempre presente) ou uísque. Mas acaba cantando, não mais para o presidente, mas para a plebe, embevecida. Apareça.

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