Brasília-DF,
23/OUT/2017

Confira a crônica de Paulo Pestana sobre saudade, amizade, exercícios e morte

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Publicação:26/07/2013 06:04
 (Arquivo Pessoal)

A palavra que falta

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

Faz um mês que eu perdi meu companheiro de caminhada. É bem verdade que, nos últimos meses, compromissos profissionais me afastaram dos exercícios matutinos, que diariamente nos levavam por cerca de 8km, na ilusão que assim estávamos combatendo os excessos da noite anterior. Ainda assim, sentia-me presente.

Mais do que um exercício aeróbico, era uma forma diferente de relacionamento; em vez da mesa no centro cheia de copos, como estávamos acostumados, éramos quatro pessoas — às vezes cinco — caminhando, passo acelerado, suando. Ao mesmo tempo, deliberávamos num esforço concentrado para resolver os problemas mundiais, sempre com soluções criativas, embriagados pelo ar puro.

O companheiro era sempre o mais falante, o mais exaltado, o mais apaixonado e que só interrompia as digressões para roubar uma ou duas amoras das árvores silvestres que cresceram pelo caminho — desconfio até que o percurso foi sendo formado de acordo com as amoreiras que fomos encontrando.

Passos largos, era ele o maestro do exercício, determinando o ritmo e a intensidade. Quando tinha uma afirmação categórica para fazer, parava e, depois da consideração, continuava. A atividade física era, assim, acompanhada de uma irresistível provocação intelectual: política, literatura, música, negócios, poesia, tudo fazia parte do esforço.

A matéria-prima principal eram os sonhos e projetos. E nisso o companheiro era imbatível, tinha sempre uma novidade. Um dia anunciou: vou ser compositor. Já tinha escrito contos, artigos, causos e poesias; era um homem de palavras. Essa não era, portanto, uma área estranha a ele, mas ainda assim... Dias depois, armado com um iPhone e um fone de ouvido, mostrou as primeiras crias.

E nunca mais parou de mostrar. Dizia-se grávido, cheio de coisas para pôr no papel, uma profusão de palavras que queria ver cantadas, ao mesmo tempo em que ia tratando dos negócios, bolando expansões, planejando viagens, cuidando dos amigos, numa atividade que faz supor que a expressão multitarefa foi criada para ele.

Falava o tempo todo e, contraditoriamente, era um dos melhores ouvintes que se podia encontrar, interessado em todo tipo de história, ainda mais se pudesse participar dela para ajudar quem quer que fosse. Era um personal trainer de vida.

Dia desses, sozinho, fui refazer o nosso caminho diário. Não dá mais. As ruas internas do Lago Norte, já feias com aquelas ridículas cercas de lata pintadas de verde-oliva, ficaram claustrofóbicas. O exercício parece ter perdido a razão, os sentidos são embaralhados por conversas e risadas ancestrais que assombram. Mudei o itinerário.

Os outros caminhos não são tão fáceis de mudar. Lugares continuam impregnados pela deliciosa e opressiva presença dele. É como se uma assombração ficasse repetindo o tempo todo um dos versos que ele escreveu no livro Rio Adentro: “Descobri noite adentro: para a morte me falta talento”.

Ensinaram-me que saudade não é tristeza. Então a gente precisa inventar uma palavra nova pra definir a falta que o Jorge faz.

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