Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre o retorno do disco de vinil

'O vinil, essa matéria plástica, é responsável por algumas das maiores irritações que se pode experimentar ao agregar chiados à música', diz o cronista

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Publicação:09/08/2013 06:03
 (Arquivo pessoal)

A discoteca ambulante

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

Disco de vinil é um atraso de vida. Com os meios digitais, a música reassumiu o seu formato original e ideal — nenhum. Música só precisa do ar para se propagar e ser ouvida, curtida ou detestada. Desculpa aí, sei que estou atrasado, mas é um despautério esse retorno dos famigerados vinis.

Sim, famigerado. O vinil, essa matéria plástica, é responsável por algumas das maiores irritações que se pode experimentar ao agregar chiados à música; pior, quando, arranhado, faz a agulha repetir ou saltar os sulcos, transformando o prazer de ouvir Milt Jackson e o MJQ em tortura.

É o mesmo vilão que nos fazia levantar para trocar o lado do disco, quando se sonhava ouvir Pet Sounds de uma vez, só com a respiração representada pela separação de faixas. Ou Thick as a Brick. Ou The Lamb Lies Down on Broadway. Todas obras monolíticas de Beach Boys, Jethro Tull e Genesis.

E o Köln Concert, de Keith Jarret? Mal comparando, era um coitus interruptus só resolvido pelo CD — exceto por um amigo meio maluquinho que havia gravado o disco em fita de rolo.

Só fetiche explica essa obsessão pelo vinil. Fetiche não se explica, mas tenho pra mim que meias arrastão e espartilhos são mais recomendáveis.

A chegada do CD, para além da tecnologia, foi uma revolução sensorial. Tornou possível ouvir os cinco movimentos da Pastoral do modo que Beethoven a imaginou para apresentá-los nos teatros. Antes, sinfonias e óperas eram retalhadas — cada lado do vinil não registra mais que 20 e poucos minutos contra 74 dos CDs.

E não havia mais chiados. Nem pulos. O vinil dependia até de tempo bom pra ter uma performance aceitável — éramos obrigados a manter discos sob uma pilha de grossos livros para tentar reverter um LP empenado!

O Napster começou outra revolução. E, se no início a compressão das ondas hertzianas causava arranhões em ouvidos mais exigentes, hoje não há do que reclamar. Os novos formatos digitais resolveram o problema dos tons graves. Hoje tenho uma discoteca ambulante de quatro terabytes.

Ainda tenho um montão de discos de vinil. Não cheguei ao requinte de trocá-los por arquivos mp3, wma, o que seja, mas preferia tê-los em CD — são de vinil mas estão longe de serem supérfluos. Alguns nunca foram editados digitalmente, caso de Regininha, Turma da Pilantragem, Titulares do Ritmo, Patife, Cyro Monteiro, Marku Ribas, Damião Experiença... E sem contar a maioria dos LPs de Elizeth Cardoso.

Outras gravações chegaram ao vinil, mas não fui ágil o suficiente para alcançar a diminuta tiragem. Daí, mantenho Walter Franco, Os Tincoãs, Odair Cabeça de Poeta, Edu da Gaita e dezenas de outros. O disco do Blind Faith está em petição de miséria, Django do MJQ, empenado, pede substituição, assim como todo o Bill Evans da Riverside. Os clássicos vão bem: são todos CD e, claro, na ambiente virtual da minha discoteca ambulante.

Não contem comigo em nenhuma feira de vinil: música é pra ser ouvida.

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