Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre as características do zouk

O objetivo parece ser contrariar sir Isaac Newton e fazer com que dois corpos ocupem o lugar de um. O casal deve se espremer em si próprio para suas evoluções.

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Publicação:16/08/2013 06:03
 (Arquivo Pessoal)

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

O zouk e os pés de alferes

O momento de maior intimidade de um casal acontece numa pista de dança. É ali — muito mais do que onde você pode estar imaginando agora — que as coisas realmente acontecem. E essa intimidade atinge nível gomorreu quando é uma pista de zouk.

E, se o senhor acha que não tem nada com isso, esteja preparado: vem aí o 3° Congresso Balança Brasília. Não sei bem do que se trata, mas o povo vai lá dançar samba e zouk. E saibam os pés de alferes que, se craque de bola só precisa do espaço de um lenço para fazer uma jogada, o dançarino de zouk não precisa mais que um azulejo — dos pequenos.

Pé de alferes, você sabe, é o galanteador, o donjuán. E nem sei se o último não se foi com aquele moicano.

Aprendi pelas quebradas que dançar é bom quando é acochado, cheirando o cangote, mordiscando o lóbulo da moça e ainda falando algumas impropriedades. É a essência, por exemplo, do forró; chegado, mas respeitoso. E limpinho.

Hoje está diferente: o pessoal dança forró ocupando o salão todo, com passos largos, rodopiando como numa valsa em coreografia de competição, jogando o par pra lá e pra cá. Só faltam os jurados com aquelas plaquetas.

Não entendo dessas piruetas e rodopios; a gente fica tonto em vez de se concentrar no que importa, no que é para valer. Na verdade, nunca entendi danças como o minueto e o vanerão, em que cada um parece estar por si, jogando a moça para o mais longe possível. Pra dançar sozinho é melhor fazer ginástica, não é?

O zouk não é assim. Muito ao contrário, aliás. O objetivo parece ser contrariar sir Isaac Newton e fazer com que dois corpos ocupem o lugar de um. O casal deve se espremer em si próprio para suas evoluções. Em pé, claro. Dá pra imaginar que duas pessoas podem fazer na situação, pois não? E o tipo de evolução que acontece por ali.

É mais ou menos como se duas lacraias levantassem 98 pés cada uma e se engalfinhassem ao som de uma música caribenha, indolente e quase sempre cantada em francês. É de corar safardana; cada um sabe como amarra o próprio cadarço.

O zouk foi apresentado ao mundo lá pelos anos 1980, milênio passado, ainda como um estilo musical. Um subgênero, filhote do calipso (não, madame, a Joelma e o Ximbinha não têm nada com isso; é outra história). É muito popular mais ao norte, notadamente em Macapá, obviamente pela proximidade das Antilhas Francesas, onde tudo começou.

Em Brasília ainda não pegou. E duvido que vá pegar. A moçada anda mais interessada em tomar energético e pular a noite inteira seguindo as carrapetas mal ajambradas de chatos que acham que diversão é volume.

O zouk pode ser uma dessas modas passageiras, mas ao contrário de outras ondas, esta eu recomendo. Mas com parcimônia.

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