Brasília-DF,
21/OUT/2017

Cronista Paulo Pestana fala sobre "estelionato social" das grandes marcas

"Não tenho uma camiseta Ralph Lauren ou daquele jacarezinho", brinca o cronista sobre a ditadura da moda

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Publicação:22/11/2013 06:04
 (Arquivo Pessoal)
O bullying e eu

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

Essa coisa de grife está enchendo as medidas ou sou só eu que implico? A gente bem entende que uma das funções da publicidade é criar desejos, mas a situação está próxima de alguma coisa que pode ser chamada de estelionato social — a ninguém, exceto aos párias, é mais permitido não ter.

E vem surgindo uma legião de novos excluídos que não sabe mais onde encontrar forças para enfrentar o bullying publicitário. Eu mesmo, no meu cantinho, estou quase abrindo um crediário para comprar um desses consoles novos da Sony (embora o jogo eletrônico mais recente que tentei foi o Sonic Angry Birds não vale).

E estou evitando festas informais porque parece que sou o único ser humano que não tem uma calça Diesel — e até bem pouco tempo eu achava que só servia pra fazer andar trator e caminhão. Quando é uma festa a rigor é pior: qualquer um dos seguranças fica mais elegante.

Confesso que sinto o ar carregado, quase se solidificando e formando uma muralha, ao me aproximar das rodinhas. Até porque também não tenho uma camiseta Ralph Lauren ou daquele jacarezinho. As senhoras ainda olham; mas é piedade, tenho certeza.

Com mulher, reconheço, é pior. Elas reparam mais e, como uma amiga não se cansa de dizer, nenhuma delas pensa em arrancar suspiros dos homens quando se veste; querem é o olhar de inveja das amigas. Mas agora melhorou: elas poderão comprar um Cavalli legítimo por R$ 800 — na C&A. E não comprem pra ver só.

Mas o que me incomoda mesmo é a grife informal. Essa dói. Eu que gosto de frequentar os chamados restaurantes populares, esses que servem o fino da baixa gastronomia, tenho sido obrigado a ir a locais em que as pessoas vão mais para serem vistas do que para comer.

E comentam. “Você já comeu a carne do restaurante X?”, me perguntam. E se espantam quando digo que não. Se revoltam. “Como não?”, retrucam. “E os camarões da cantina Y?” Também não.

Eu sempre digo que prefiro o tacacá da Feira da Torre — o que é a pura verdade; é ótimo, recomendo. E também não gosto de ir às filiais; se é pra ir, vamos à matriz. Mas saio meio de banda; tenho certeza de que os próximos e cruéis fuxicos serão sobre minha indigência.

Não tenho como explicar a esses amigos da alta roda que eu gosto mesmo é de comida com osso. Pode ser chambaril, rabada, galinha caipira, costela, mocotó, bisteca...

Agora, imagine a cena: o sujeito-sem-calça-diesel, sentado no restaurante, pede um premier cru no decantador e um galopé (não tem osso, mas tem pé e bico). Ademais, não é de bom tom comer com a mão nesses lugares; como segurar a costelinha? Aquela aguinha morna de lavanda não serve de nada.

Para não perder o fio da meada, eu ando cansado. Mas também impotente; temos sido engolidos pela grife do bom gosto, pelo esquadrão do politicamente correto e pelos valentões da novidade. Abre-se um fosso social perigoso; tênis, camiseta e celulares viram mercadoria preciosa; objetos de culto e desejo. Sei não; isso não vai acabar bem.

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