Brasília-DF,
23/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre a fissura em gostar do que vem de outro país

Os exemplos variam entre produtos, festas e até datas comemorativas

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Paulo Pestana Publicação:27/12/2013 06:00Atualização:27/12/2013 08:44
 (Divulgação)

A gente gosta mesmo é de copiar. E quanto pior, melhor. Os costumes dos americanos do norte, popularizados pelo cinema e pela tevê, fascinam tanto que chegamos ao ponto de importar até festas deles. Mesmo que não tenham qualquer significado para nós, criados sob o tacão moral católico romano. Aqui, finados é um dia triste; eles distribuem doces no halloween.

A marmota aumentou recentemente com a importação da black friday, adotada pelo comércio para, como vimos, enrolar o consumidor. Não se deram ao trabalho nem de traduzir o nome para explicar a nós, ratatuia, que friday é só uma sexta-feira.

Há alguns anos algumas empresas adotaram a casual friday, que é só uma desculpa para trabalhar sem gravata, bastando dizer que seria uma sexta informal. O fato é que gostamos de importar quinquilharias, sejam produtos de R$ 1,99 (que a inflação comeu) ou porcarias pseudoculturais.

Mas há o que mereça ser copiado. Por exemplo, as resoluções de ano novo. É uma simples lista com as coisas que decidimos fazer no novo ano. Não vale colocar coisas impossíveis, como perder peso, parar de beber ou não reclamar do governo. Muito menos ganhar na loto.

Uma boa lista de resoluções — e elas podem ser de qualquer tamanho, não precisam seguir os cartesianos números redondos — deve começar com algo que solucione problemas que não dependem de mais dinheiro ou dos outros. Um início leve, portanto.
Cuidar da horta. Pronto. Compre sementes, adubo, um ancinho novo e dê tratos à terra. Simples, fácil de cumprir; o desafio é manter. É como parar de fumar: não tem nada mais fácil. Tenho um amigo que já parou 43 vezes. Quem não tem quintal pode apelar para outro hobby: origami, bonsai, levar o lixo pra fora, elogiar a patroa.

A partir daí, é preciso levar as coisas mais a sério. O objetivo das resoluções deve ser melhorar a sua vida; mas sem aumentar da cota de egoísmo que cada um tem direito. Até vizinho chato merece respeito.

Pode-se até prometer que vai respeitar os recursos naturais do planeta e consumir menos água. Desde que não aumente o fedor no ônibus.

Devagar com o andor. Parcimônia. Temperança. Na verdade, para que o ano seja melhor, bastaria que as pessoas escrevessem apenas um item em sua lista de resoluções: serei mais educado. Estaria de bom tamanho.

Voltando lá no sexto parágrafo, hobby é mais uma dessas palavras que deram volta ao mundo. Antes de ser universalmente conhecida como a definição de uma ocupação destinada ao prazer, hobby era um cavalo pequeno ou, em alguns casos, um cavalinho de pau. Deve fazer algum sentido, mas não me pergunte qual.

Ópera é a obra completa — tem música, balé, teatro, literatura, poesia. Tudo reunido. São faces variadas que obviamente inibem improvisos e surpresas. A exceção é quando dois músicos de jazz se reúnem para reler (e praticamente revisar) a obra de um gigante. O álbum (sim, eles ainda existem) Dyad apresenta a obra de Giacomo Puccini sob a ótica do pianista Lou Caimano e o saxofonista Eric Olson. Eles conseguem manter a reverência às melodias universalmente conhecidas sem abdicar da invenção. Recomendo o download.

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