Brasília-DF,
17/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre o conceito de arte e música no Brasil

Por cima, o autor destaca alguns artistas de peso e produções mais atuais

Diminuir Fonte Aumentar Fonte Imprimir Corrigir Notícia Enviar
Paulo Pestana Publicação:03/01/2014 06:00
 (Arquivo Pessoal)

Eles surgiram nos anos 1970, mão invertida da rua da contracultura, do desbunde e dos descolados. Foram marcados como gado e relegados a um gueto, onde permanecem até hoje — alguns conseguem licença para sair e tomar um banho de sol; em seguida são recolhidos aos costumes.

O brasil não gosta de seus cantores populares. Ou melhor, gosta, mas tem vergonha. A morte de Reginaldo Rossi mostrou o fosso que há entre a inteligência do país e suas camadas populares. Os artistas reconhecidos e que levam a D.O.C. (Denominação de Origem Controlada) da MPB suam para dar qualidade a suas canções; trabalham com equilíbrio e cálculo sobre o que o compositor russo Igor Stravinsky chamava de espírito especulativo. O artista do gueto é instinto, perturbação emotiva.

Os cantores populares conseguem expor emoções baratas, porém legítimas, das pessoas ordinárias. É a catarse no lugar da razão.

Por ofício, estive próximo de alguns desses artistas. Vi operários, gente que trabalha duro num mercado competitivo e que, nesses tempos de download, está ainda mais acirrado. Antes de tudo são pessoas muito sinceras sobre seus sentimentos e objetivos: não querem fazer arte; querem cantar e, principalmente, fazer com que os outros cantem.

Amado Batista contava que uma das maiores emoções de sua vida foi ouvir uma pessoa que ele não conhecia cantar sua música. E o finado Waldick Soriano não sabia explicar de onde vinham suas músicas: “Elas nascem”, dizia.
O mesmo Stravinsnky escreveu que “o instinto é infalível... a todos os acontecimentos, uma ilusão viva é mais valiosa do que uma realidade morta”. Esta é a razão do cantor popular.

No estudo Do belo musical, Eduard Hanslick cita que “em relação às impressões mais avassaladoras produzidas pela música, entremeia-se, por parte do ouvinte, uma elevada dose de excitação física. Por parte da música, esse ingresso intenso no sistema nervoso não se baseia tanto em seu elemento artístico, que parte do espírito e ao espírito se volta, mas antes a seu material, de que a natureza tem herdado aquela impenetrável e fisiológica afinidade eletiva.”

São palavras grandes para dizer que emoção não nasce da arte. A música de cantores como Rossi, Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista e do falecido Amilton Lelo, para ficar na superfície, faz chorar e rir, cantar e gritar. São temas simples, banais, diretos — como a nossa vida.

Talvez o problema esteja na definição de artista. O filósofo Jacques Maritain lembra que, na sociedade medieval, o artista era um artífice, com limitações impostas pela disciplina social. Mesmo na Renascença, havia os mestres, mas músicos, poetas e escultores eram apenas artífices.

Aos poucos, a sociedade foi criando uma classe à parte para eles, tratando-os como se fossem supra-humanos, entes especiais, dotados de capacidades extraordinárias e únicas. Não os artistas populares. Esses são gente ordinária.

Caetano canta Fernando Mendes, Zeca Baleiro produz disco de Odair José, roqueiros gravam Reginaldo Rossi — esforços que não enfrentam o preconceito. Ao contrário, expõem-no como exótico. E eu escrevi tudo isso aí só para dizer que acho Reginaldo Rossi o máximo.

COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva dos autores.

BARES E RESTAURANTES

CINEMA

TODOS OS FILMES [+]