Brasília-DF,
17/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana compara a cultura atual de Brasília com a dos anos 70

"Não sei se alguém tem saudade da época. Eu não tenho. Tudo era mais ameno e mais romântico"

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Paulo Pestana Publicação:17/01/2014 06:00
 (Arquivo pessoal)

Última página. Até aqui, você leu sobre restaurantes, bares, cinemas, teatros, espetáculos musicais e tudo o mais que a cidade pode oferecer nos próximos dias, numa hercúlea compilação; dezenas de páginas. Até bem pouco tempo, não era assim. Em Brasília, fazia-se cultura de resistência.

Nos anos 1970 — pensando bem, faz tempo pacas (tanto que ninguém mais fala pacas) — Brasília ainda era o ermo dos tempos de Vinicius; teve que inventar sua produção cultural na raça e graças a uns sujeitos esquisitos que corriam a cidade inventando coisas que livrassem a população do tédio absoluto que vinha embalado na poeira vermelha levantada pelos redemoinhos — os lacerdinhas.

São tipos inesquecíveis. Como Zé Damata, programador do Cine Cultura, que insistia em nos livrar dos males de Hollywood, adjetivando todo mundo de gênio — menos Maria Santana e Karim Nabut; este dono dos cinemas e, aquela, a divulgadora dos filmes arrasa-quarteirão. Damata insistia em trazer rolos diferentes, cultuava um cinema que não falasse inglês. Ele não sabia ainda, mas a dicotomia fez dele um formador de cabeças.

E por cabeças, havia ainda Néio Lúcio, responsável pelos Concertos Cabeça, reuniões multiculturais que formaram gerações. Havia Zé Fernandez, um professor que botou Taguatinga no mapa cultural com o teatro Rolla Pedra; mais discretamente, mas fazendo um barulho danado, Nicolas Behr vendia poesias mimeografadas no Beirute.

Tinha a turma do teatro — Hugo Rodas, Cristina Borracha, Alexandre Ribondi, Plínio Mosca —, cada qual com seu jeito e à sua maneira. Mosca, por exemplo, vestia uma personagem até para vender ingressos na bilheteria (sim, atores fazem cada coisa!).

E havia a turma do rock, que nem tinha espaço, mas cavoucava. Era um tempo em que roqueiro era malvisto — bons tempos — e mal ouvido (equipamentos e instrumentos eram péssimos). A Margem pichava as paredes da cidade com sua marca, disputando muros com frases enigmáticas, embora importadas de outras cidades: “celacanto provoca maremotos”, “Demian esteve aqui”.(Era a contracultura abraçada ao mainstream: a primeira pichação é derivada de National Kid, predecessor desses seriados japoneses com monstros destruindo maquetes e muita luta; a segunda de uma novela da TV Globo.)

Entre os aspirantes a compositores-que-iam-mudar-o-mundo havia um subgênero, que eram os festivais estudantis. Era uma espécie de todos contra o invencível Oswaldo Montenegro, que se espalhava por escolas e por clubes. E ninguém estranhava o contraste da harmonia do Invoquei o Vocal com a doce balbúrdia do Liga Tripa.

Era um tempo em que os ambientes eram comuns a todos; inclusive as delegacias, quando centenas de jovens eram recolhidos aos costumes por fazerem a plateia dos pegas do Caseb (notívagas corridas de automóveis, digamos, não autorizadas) ou de festas menos ortodoxas, como a rockonha (assim apelidada por Mário Eugênio, repórter policial que acabou morto pelos meganhas).

Não sei se alguém tem saudade da época. Eu não tenho. Tudo era mais ameno e mais romântico — até as brigas de rua, com garotos defendendo a honra de suas quadras como se fossem pequenas repúblicas — mas o mundo era muito longe daqui.

E ainda acho que a gente, quando fica mais velho, só deve sentir falta do metabolismo que funcionava sem problema.

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