Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana discorre sobre o movimento literário parnasianista

O autor expõe algumas citações e opções de literários

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Paulo Pestana Publicação:07/02/2014 06:00Atualização:06/02/2014 14:11

 (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Mais novo, meu primeiro encanto eram os parnasianos; talvez atraído pela formalidade. E havia uma estranha sensação de presenciar uma colisão — a música dos versos lembram um cantochão, aquela melodia primitiva, monótona, encontrando-se com a métrica elaborada e palavras sofisticadas que exigiam consultas a um dos cinco tomos do volumoso Laudelino Freire, meu primeiro dicionário.

Sonetos também me atraíam, embora a música desses me parecesse repetitiva e, em mais de um sentido, quadrada. O soneto, no entanto, não é uma canção pobre; ao contrário, na maciez da sua forma alivia; em 14 versos o bom soneto precisa provocar arrepios.

A prosa me fez afastar da poesia. Palavras caudalosas são mais fáceis de lidar, o volume disfarça os equívocos e desfaz os mistérios e, de repente — não mais que de repente, como estava no soneto — eu comecei a temer a poesia e os poetas.

Seres estranhos: não dava para entender a desfaçatez de um Vinicius; a profundidade dos versos não batia com a frivolidade da vida real. Não cabia tanta melancolia num sujeito que morava na praia e vivia com a camisa multicolorida e desabotoada. E Drummond: drama e erotismo inspirados na rotina de um funcionário público, entre cópias de memorandos, carbonos e carimbos?

A desconfiança com os poetas só acabou definitivamente com Manoel de Barros, poeta mato-grossense do qual eu nunca tinha ouvido falar até que Luis Turiba me chamou para mostrar uma edição da revista Bric-a-Brac, que estava por sair.

(Bric-a-Brac, para quem está saindo do ovo agora, foi uma nau que ainda não aportou, um periódico poético que não tinha medo de palavras e ideias, que fez política sem partido e bagunçou o coreto).


Nessas páginas, Manoel de Barros iniciou um processo que ele aperfeiçoaria dali em diante: entrevista por carta. As respostas eram enviadas pelos correios, corrigidas, repassadas, até atingirem o formato ideal – eram, claro, poesias. Manoel de Barros inventou um universo que está sendo compilado numa série fechada de pequenos livros. É quase um testamento do poeta de 97 anos e que viveu tantas vidas.

Ainda sobre poesia, ainda sobre Bric-a-Brac, eis que Turiba lança um novo livro, Qtais. Ainda não o li, mas já gostei. Turiba é um poeta que não mete medo, ao contrário, é um celebrador, busca a criação a qualquer custo, que não perde a piada nem o amigo. É, enfim, um sujeito que Brasília precisa resgatar; por mais maravilhosa que seja a cidade, é na poeira vermelha que a fertilidade dele aparece.

E urge publicar a edição definitiva da Bric-a-Brac, com a compilação dos seis números da aventura capitaneada por Turiba, Reza, João Borges e Lúcia. Não é saudosismo: tudo ali ainda está valendo.
 

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