Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana comenta sobre a mania de se limitar com listas

Para o autor, listar coisas é abrir mão de outras também essenciais

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Publicação:14/02/2014 06:00Atualização:13/02/2014 13:32
 (Arquivo Pessoal)

Listas são boas pra supermercado. Do contrário, são limitadoras — uma forma de simplificar a vida e de diminuir nossas emoções. Funcionam como uma espécie de viseira, daquelas usadas para que os cavalos não olhem para o lado e sigam em frente.

As livrarias estão cheias de livros que têm como principal objetivo constranger o leitor: 1001 lugares para visitar antes de morrer, 100 músicas para ouvir antes do fim de semana, 10 livros que você já devia ter lido, 51 filmes que você nunca ouviu falar.

Estão substituindo outra série de livros constrangedores, aqueles que resumiam obras inteiras em poucas linhas, em resumos assassinos de óperas, livros, peças, filmes e o que mais coubesse. É para que o sujeito tenha o que conversar numa festa; é como se um bom papo acabasse no primeiro parágrafo.

Outro dia um velho amigo estava participando de uma discussão eletrônica para eleger as cinco canções mais beatle feita por qualquer um que não fosse um beatle. Não sei quem ganhou, não votei (embora pudesse escolher Four seasons in one day, dos neozelandeses Crowded House) e ficou tudo por isso mesmo. É isso: listas não servem pra nada.

Mais do que qualquer outra manifestação, são as canções que despertam mais o desejo de criar listas para qualquer ocasião, numa obsessão que foi deliciosamente retratada no livro Alta fidelidade, de Nick Hornby (ele próprio cai na armadilha anos depois ao escrever 31 Canções).

Canções marcam a vida de todos nós, mesmo de quem não gosta de música. Desde a mais tenra idade, as pessoas são marcadas pelo que ouvem, sons armazenados na memória e que eventualmente despertam, como uma espoleta, trazendo lembranças.

Daí a grande questão é: uma vida pode ser resumida em quantas canções? Não sei responder, mas 10 é muito pouco.
Tem gente que consegue. A FM Nacional, semanalmente, entrevista pessoas que escolhem as canções que mais marcaram suas vidas por um ou outro motivo — namorada, mudança, fossa, alegria, regozijo.

As pessoas vão ao estúdio e contam seus segredos mais íntimos para Márcio Lacombe, que, com pele de cordeiro e fome de lobo, arranca sentimentos alheios, no programa Memória Musical.

Faz um ano que o doce Marcinho me pediu minha lista. Um ano! E até agora a menor lista que eu fiz tem 63 músicas. É dureza limitar a vida da gente em 10 canções. O que fazer com as outras 53? E como confessar que uma música ruim como Menina da ladeira, do João Só, fez parte da vida da gente pelo simples fato de a namoradinha não parar de cantá-la.

Mais de uma vez, fui ao catálogo procurar o telefone do coletivo Procure Saber, esse que está tentando demitir os biógrafos do país. Queria pedir ajuda contra essa invasão.

 Lacombe, porém, é um irredutível. Faz pressão em silêncio, a mais opressiva delas. Na minha lista eu só tenho uma certeza. A música que marcou minha infância foi a Marchinha do Grande Galo, com os Titulares do Ritmo. Daí pra frente virou uma bagunça.

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