Brasília-DF,
21/OUT/2017

Eu ainda acredito que a intimidade deve ser preservada, diz cronista

O jornalista Paulo Pestana comenta sobre a privacidade de pessoas públicas na era da tecnologia; confira

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Paulo Pestana Publicação:28/02/2014 06:00
 (Arquivo Pessoal)
Está combinado então que o cinismo é a moda; assim como a desfaçatez e a distorção de valores — há uma confusão entre honestidade pessoal e falta de rumo que tira o fôlego de quem acredita que um pouco de juízo (e privacidade) ajuda a manter a sanidade individual e a civilidade coletiva. Mas essa onda de autoflagelação passa um pouco dos limites.

A exploração de alguns pontos negativos — ou, sejamos generosos, obscuros — de personalidades públicas entra no terreno da provocação simples. Falem mal, mas falem de mim, parece ser o lema a ser seguido. Do nada, fatos que as pessoas não confessavam nem ao analista (ainda que protegidas pela relação de sigilo profissional) estão expostos. E com orgulho — é como se dissessem a todos: eu também sou um sujo! Um imundo!

A vida das pessoas públicas — notadamente artistas — sempre fez parte da vida das pessoas ordinárias. É uma extensão da ficção que nos é apresentada, como se esses sujeitos fossem sempre personagens de uma comédia maior da qual todos nós participamos. Somos os extras, observando a atuação dos protagonistas, num filme que saiu da tela; situação antecipada por Woody Allen em A rosa púrpura do Cairo.

É assim que um ator popular como Charlie Sheen vem ao mundo anunciar que vai se casar com uma atriz pornô; que um ídolo adolescente como Justin Bieber resolve mostrar aos pais que não é o genro ideal e sai provocando confusão só para ver o tamanho do estrago; e que uma cantora talentosa como Miley Cyrus, que despontou no quintal Disney de bons modos e, de uma hora para outra, deu de insinuar relações sexuais com bichinhos de pelúcia, entre outras preciosidades.
Tá bom, mas e eu com isso?

Esta necessidade de mostrar os podres, claro, alcança as pessoas comuns que têm usado as redes sociais para abrir a caixa de ferramentas e confessar os mais primitivos e básicos instintos. É uma forma de se igualar aos ídolos; afinal, se eles podem, todos nós podemos.

Tempos diferentes. No ginásio, um professor de português nos incentivou a escrever um diário, citando as próprias emoções que sentia ao reler as coisas que tinha escrito anos antes. Ele teve o cuidado de dizer que se tratava de uma conversa solitária, um exercício de autoconhecimento que não deveria ser compartilhado com mais ninguém.

Comigo não deu certo. Menos de um mês depois do início da jornada, queimei o caderno. Tinha coisa que me escandalizava. Era como eu estivesse no confessionário e, no fim de cada leitura, tivesse que rezar duas Salve-Rainhas e 15 Ave-Marias.

Eu ainda acredito que a intimidade deve ser preservada. Ela é o nosso espelho. A inversão de valores é achar que, se temos algo que não deve ser divulgado, é errado, malfeito ou condenável. Um mundo sem segredos pessoais é um mundo cínico: questões particulares devem permanecer assim, reduzidas, nunca coletivas.

O exibicionismo é uma forma de fugir do anonimato. Como se o mundo pudesse ter apenas protagonistas, e ninguém mais quisesse segurar a escada.

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