Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre os detalhes das refeições francesas

O escrito detalha experiência com destilados e a dificuldade de abrir um champanhe

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Publicação:21/03/2014 06:00Atualização:20/03/2014 13:13
 (Arquivo Pessoal)

Prato bom é fundo, não é mesmo? E cheio. Essas porções balanceadas e polidas nunca me atraíram. Sim, estou mais para glutão do que para gourmet. Não tive educação formal para usar talheres, copos, exercitar o paladar buscando sabores e temperos, degustar sutilezas, enfim. É pão, pão; queijo, queijo.
 

E no copo, destilados. Sempre tive um fraco por bebidas fortes — especialmente uísques de sabor esfumaçado. E uma pinga sem madeira, branquinha. Tudo na maior moderação — pelo menos na maior parte do tempo.

Dito isso, peço vênia pela historinha que se segue e que se passa em terras francesas e em ambiente que não costumo frequentar. Tinha tudo para ser um roteiro mazzaropiano; um caipira perdido no Velho Mundo. Fui salvo do vexame por duas companheiras de viagem, sóbrias, elegantes, também convidadas do governo francês.

Eis que fui parar em Reims, mais precisamente na Maison Moët & Chandon. Reims é uma espécie de capital mundial do champanhe (devo escrever com g?), o borbulhante vinho criado por um monge que hoje é nome de... Champanhe, Don Pérignon.

Conta a lenda local que Napoleão — o general, não um maluco qualquer —, quando saía para a batalha, dava uma paradinha ali para saborear algumas flütes e ficar altinho; e, quando voltava, qualquer que fosse o resultado, voltava para beber o restinho.

De guerra eu não entendo. Nem de champanhe, aliás. Mas os franceses entendem: seguiu-se uma impressionante sequência de pratos, cada um deles voltado para um tipo específico da bebida, que tiravam os comensais do sério. Saí dali quase um especialista.

Eu que era acostumado a abrir as refeições com uma tripinha de bode frita — hoje recomendo a do bar dos fundos do Mercado do Núcleo Bandeirante, limpa e crocante — ou algo semelhante, me deparei logo com um prato de escargots — acompanhados de uma brut Imperial, exatamente a favorita de Bonaparte.

E seguiu-se a tarde. Aprendi, depois do almoço, que guerreiros abrem a garrafa na marra, ou melhor, no sabre. Sem tirar o arame que segura a rolha, uma leve sacudida na garrafa e um golpe seco na primeira volta do vidro. Pronto. A pressão impede que caquinhos se misturem ao líquido, e o sujeito se sente um verdadeiro conquistador.

Anos mais tarde, minha ignorância foi sacudida de novo quando, na finada DOC Xampagneria, ainda na Asa Norte, me foi mostrado que era possível abrir uma garrafa apenas batendo a base de uma tacinha. Não faça em casa: já quebrei um monte delas, e a rolha continuou incólume.

Com o sabre — ou melhor, com um facão mateiro que tenho em casa — eu ainda me garanto e racho a garrafa.
O mais importante é que passei a respeitar mais os champanhes e os vinhos, como deve ser. Ainda não consigo encontrar notas de amêndoas mofadas, traços de gengibre seco na laje e sabores ocultos de cinza de charuto de encruzilhada, como determinados críticos de gosto apurado. Mas tenho me esforçado. Com os destilados é bem mais fácil: ou é fritura ou amendoim. E gelo.

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