Brasília-DF,
21/OUT/2017

Cronista Paulo Pestana relata mudanças no Bar do Silvio, na Asa Norte

O cliente se mostra pensativo em relação a presença feminina no quase clube masculino

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Paulo Pestana Publicação:28/03/2014 07:00Atualização:27/03/2014 13:00

Cronista Paulo Pestana (Arquivo Pessoal)
Cronista Paulo Pestana

Alguém vai ao bar pra comer salada? Apesar da interrogação, ninguém precisa responder; é só retórica, tão óbvia é a negativa. Portanto, desconfio que Silvio Ronaldo está tentando transformar nosso refúgio em algo ameaçador... talvez até num restaurante.

claro que bares servem comida. Alguns servem pratos. E Silvio é comerciante, com o agravante de ser cearense, o que o torna mais comerciante aind. Foi com o mais falso sorriso que conseguiu arrumar que ele ofereceu o novo prato: folhas. Silvio já servia uma salada hipertemperada, boa entrada e desculpa esfarrapada para o festival de brutalidades gastronômicas a seguir: rabada, sarapatel, mungunzá salgado, torresmo, maxixe com nata, costela — enfim, tudo o que nos entope.

Dessa vez, a salada era diferente; vinha achatada como uma pizza e cortada em fatias. Com lábia de vendedor de carro usado, explicava que o formato ressaltava o sabor, ampliava o alcance das papilas gustativas, que a alface ficava mais crocante, e o tomate ganhava ares nobres. Não colou. Pedimos o sarapatel de sempre como entrada e uma feijoada gorda, com muito pé e pouco paio.

Fica a lição: não se mexe em tradições. O bom bar é um refúgio; pode ser barulhento, fedorento, mal frequentado, o que for. Mas é um espaço que exige ritos; há uma liturgia. Prato novo no cardápio é recebido com a mesma desconfiança de um desconhecido, ainda que apresentado por qualquer dos tradicionais frequentadores. É um invasor.

O bar do Silvio é quase um bunker. O lugar não tem nem placa; só as mesas colocadas do lado de fora denunciam a atividade. E, evidentemente, o cheiro que exala das panelas. Fica na esquina de trás da comercial da 114 Norte, atrás da padaria.
Antes da salada, já havia quebrado uma tradição. Antes a frequência era só masculina; até porque Silvio não incentivava a presença feminina no local. Segundo uma de suas máximas, mulher em bar é sinal de confusão.

Mas as esposas foram se aproximando, obviamente para vigiar os maridos; trouxeram filhos, agregados e sufocaram as indecências da conversa. Ele gostou da nova frequência e mandou fazer um banheiro novinho, só para as mulheres.
A mesa reagiu àquela invasão, mas ninguém pode com a horda barulhenta que mudou o rumo da prosa de todo sábado. Hoje é quase impossível ler o jornal em paz. Mas houve compensações; ou pelo menos deve ter havido porque, apesar da contrariedade, ninguém arredou o pé.

Silvio é um ás na culinária popular — até a batata frita dele é diferente — e não brinca em serviço. O sujeito chegou e perguntou: “O que é que tem de bom”. Ele respondeu de bate-pronto: “Aqui não tem nada ruim”. Se virou e não serviu nada.
Mas do jeito que as coisas estão mudando, mais um pouco a gente vai chegar à mesa e ser recebido por ele vestido num terno e, pior, com um cardápio na mão. O pesadelo maior é o estabelecimento ganhar um apóstrofo. E passar a se chamar Silvio’s.


 

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