Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana dá dica de como espantar pessoas chatas

Segundo o autor, os chatos têm medo de pessoas loucas

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Paulo Pestana Publicação:04/04/2014 06:00Atualização:03/04/2014 14:09
 (Arquivo Pessoal)

Eles vêm me rondando ultimamente. Acho que é sempre assim; são como piuns, aqueles minúsculos insetos voadores que o mineiro chama de ‘porvinha’ (com direito àquele erre esticado e torto). A diferença é que um só vale por uma chusma, perturba o juízo da gente. Chato é assim: a gente só vê quando está em cima.

E neste mundo alucinado até a chatice tem se renovado, o que sem dúvida é um paradoxo do nosso tempo, já que uma das definições de chatura é a monotonia. Além dos atendentes de telemarketing — esses, hors-concours — , chama a atenção o chato do gestual gramático. Sim, gramático.

É o sujeito que, no meio da narrativa desinteressante, para de falar, olha intensamente para o interlocutor e, quando quer ressaltar algum trecho do seu monólogo levanta as mãos, expõe os dedos médio e indicador de cada uma delas, e fica fazendo movimentos de cima para baixo. “Aspas, seu burro”, me disse a amiga que também via a cena, diante da minha cara de espanto.

Pois é. Virou uma epidemia. E está se sofisticando. Dia desses, um chato me encontra na entrequadra — sim, são eles que acham a gente, nunca somos nós a encontrá-los; até porque, se avistados, dá tempo de mudar de calçada — e começa a me contar uma história interminável quando, de repente, para. Eu imaginei: lá vêm as aspas.

Para meu espanto, ele abriu os braços e traçou dois arcos verticais no ar. Tentei fazer cara de bovino, mas os olhos esbugalhados me traíram e ele explicou: parênteses. Aí faço eu meus parênteses, sem gesto: todo chato adora dar explicação.

Se já não estava interessado na história antes, fiquei ainda mais distante, divagando — ainda vou encontrar um camarada que vai levantar os cotovelos e dar cuteladas para os lados para dizer que pontuou a conversa com um travessão; sim, e ponto e vírgula? Talvez uma piscada e um sinalzinho descendente com o dedo. Exclamação: ele abriria a boca com olhos esbugalhados como a desesperada figura de Edvard Munch?

É, mas chato que é chato não se renova. Como aquele indigitado que chega de mansinho e que, a um metro da vítima, abre os braços e se derrama num abraço sem fim, falando sem parar — normalmente, coisas desconexas — ,e se reveza entre a cara e a orelha, despejando torrentes de perdigotos. Aí a gente tenta pensar em outra coisa, não consegue e só lamenta não ter saído de casa de capa e galochas.

Deve ser daí que vem a expressão “chato de galochas” — quem sabe num domingo desses o Márcio Cotrim não nos explica.
Pois bem. Um amigo me conta que descobriu um repelente para chatos — podemos chamá-lo de baygon gutural. O chato se aproxima do cidadão, que está no bar lendo o seu jornalzinho e, antes mesmo de terminar o cumprimento, recebe um grunhido; imagine um urso saindo da caverna depois de seis meses de hibernação — mais ou menos assim. O sujeito some. Chato só tem medo de louco.


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