Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana conta como era Brasília há 10 anos

"Por tudo isso é muito esquisito quando alguém diz que Brasília não é mais a mesma e que bom mesmo era na época em que..."

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Paulo Pestana Publicação:11/04/2014 06:00Atualização:11/04/2014 09:29

 

 (Arquivo pessoal)

Houve o tempo do esconjuro. Morar em Brasília era equivalente a ser deserdado. A cidade era, literal e figurativamente, árida. A infelicidade campeava: éramos a capital brasileira dos divórcios. Na verdade, dos desquites, já que ainda não era permitido se divorciar. Ninguém apostaria que ela seria transformada na metrópole atual, cheia de vida e de problemas.


Para os jovens era um lugar de negações. Não se podia jogar bola nos gramados, sob pena de perder a bola para os graminhas (bedéus de jardins); fora os clubes e o Chaplim, não havia um lugar central onde as pessoas se encontravam; dois ou três cinemas. E mais quase nada; um tédio com um T bem grande.

Lembro-me de Tavinho. Veio do Rio com os pais e era um deslocado total. Surfista. Ombros largos, cabelo parafinado, camisa hang ten e ondas na cabeça, Tavinho trouxe do Rio de Janeiro uma coleção de revistas com muitas fotos e pouco texto sobre o esporte, camisetas com motivos praianos e... Uma prancha.

Ele tinha plena consciência de que era patético trazer a prancha, mas era um jeito de sonhar acordado, de se imaginar vivo, mesmo a mil quilômetros de seu habitat natural. Tavinho odiava Brasília com todas as forças; esconjurava a cidade, os fundadores, os moradores e tanto fez que acabou indo morar com a avó. Nunca mais foi visto no cerrado.

Não era fácil gostar de Brasília. O esporte noturno era o desafio dos penetras — iam todos observando as luzes nos blocos; se aparecesse uma luz negra em algum apartamento, era a senha para a tentativa de invasão. Nada de confusão. Era uma ocupação pacífica, em busca de música, garotas e alguma bebidinha, se possível. Mas dava briga.

Os mais ousados driblavam os nem sempre atentos vigias do Iate Clube, quando havia a boate. A tática era sempre igual: dois bois de piranha faziam barulho de um lado da cerca, atraindo os vigilantes, enquanto que o grosso da manada entrava pelo outro lado. Quase sempre dava certo; ou não.

Até mesmo o baixo meretrício era distante, no longínquo quilômetro 7 da BR-040, onde se amontoavam as casas da luz vermelha. Ali todo gato era pardo; gente de todas as classes sociais costumava se esbarrar na escuridão dos salões, quase sempre ao som de um bolero.

Como quase ninguém tinha carro, e quando tinha era um Fusca, namorar era uma lenha. Se o pessoal reclama dos ônibus hoje é porque não viveu uma época em que eles simplesmente não existiam — ou eram invisíveis. As cidades eram isoladas; ir a Taguatinga era uma aventura, ao Gama uma viagem. Era preciso cavoucar para vencer o tédio.

Por tudo isso é muito esquisito quando alguém diz que Brasília não é mais a mesma e que bom mesmo era na época em que... — aqui entra a lembrança de cada um. Só que esta não é uma saudade da antiga cidade, mas da gente mesmo, de um tempo em que éramos mais jovens, corajosos e bonitos. Trocamos o tédio pelos problemas.
 

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