Brasília-DF,
23/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre estátuas vivas

O autor cita trabalhador mais conhecido como Raul Azul

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Paulo Pestana Publicação:18/04/2014 06:01Atualização:17/04/2014 12:03

 (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Depois de tanto tempo, Raul Seixas está mudo. E azul. O sinal se fecha e o garoto azul — não aquele da fábula, outro — se coloca sobre um tamborete azul e, com um violão azul, se transforma numa estátua. O sinal abre, buzinas tocam, e não dá tempo de ver como ele recolhe o dinheiro das pessoas que estão ao volante e que acenam para a figura.

Dá uma certa fascinação por essas estátuas vivas que se multiplicam por todo o planeta. A primeira que vi foi em Barcelona; aliás, não dá pra dizer que foi a primeira, já que a cidade era coalhada delas. Espalhadas pelas ramblas, só se mexiam ao ouvir o tilintar das moedas.

Os catalães têm mais orgulho das estátuas que saem andando depois do expediente do que daquelas que ficam expostas ao tempo e aos pombos. E mais orgulho ainda de dizer que foram eles que retomaram a tradição dessas atuações (se é que se pode chamar o imobilismo de atuação) — olé! Orgulho ali não falta.

Mas o que interessa é o nosso Raul azul. E não deve ser a rima rica a única razão pela escolha da cor para representar o elétrico baiano. Raul era azul mesmo quando se vestia de preto; tinha uma atitude solar, aberta, que foi escurecendo conforme se passaram os anos; era um desses sujeitos que nasceram para ser jovens para sempre. Nasceu pra ser azul.
Quando falei com ele pela primeira vez, já era um grande. Ainda não era um mito, mas estava no caminho. Foi na época do lançamento de Mata virgem, um de seus discos menos inspirados, e ele já não era mais tão azul: estava visivelmente abalado pelo alcoolismo.

No último contato, por telefone mesmo, era um derrotado, cansado de tantas subidas e descidas — ele tinha acabado de gravar a versão de uma música de Ringo Starr (No No Song — Não Quero Mais andar na Contramão), que foi sua última piada; voz frágil expondo os excessos de um passado ainda presente.

Ainda o veria no último show, com Marcelo Nova, no extinto Gran Circo Lar, mas só de longe. Ali, ele não tinha mais cor. Não cantou quase nada. Muita gente condenou Nova por manter o ídolo numa turnê sem as mínimas condições, mas quem tivesse conversado uma vez que fosse com Raul sabia que ele preferia sua guitarra a passar por outra reabilitação.
A imagem do Raul azul na rua é muito mais do que uma homenagem a um artista que parece imortal. É um resgate. Foi um artista que usou de todas as malandragens para entrar na engrenagem do mundo artístico, vestiu-se de cordeiro para dar dentadas do sistema e deixou sua marca. Foi produtor e compositor de música brega, usou horas ociosas de estúdio para subverter a ordem e lançar um dos discos mais radicais dos anos 1970 – Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – e posou de Tarzan famélico para a capa de seu primeiro disco.

Provocou e ainda provoca. Virou estátua. Mas, cuidado, é uma estátua que se mexe

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