Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana festeja a volta do jardim do balão do Aeroporto

O autor fala sobre os prós e contras da mudança feita no local

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Paulo Pestana Publicação:25/04/2014 06:00Atualização:25/04/2014 08:40
 (Arquivo pessoal)

Um dos monumentos mais feios do mundo recebe quem chega a Brasília pela estrada. O tal Solarius, que sabiamente o povo chama de chifrudo, fica na entrada para a cachoeira de Saia Velha, na margem da BR-040. Foi doado pelo governo francês. Um presente que tinha tudo para gerar uma crise internacional, mas deixa pra lá.

Passado o susto, o verdadeiro espetáculo estava logo à frente. E aí tanto fazia o sujeito vir de avião ou de ônibus: quem o recepcionava era o balão do aeroporto, que o populacho apelidou de bambolê da D. Sarah, e que abrigava uma das mais belas criações de Burle Marx.

Pois a boa notícia é que o jardim, seguindo o projeto original do paisagista, está voltando — com as mesmas plantas, a mesma disposição e, espera-se, uma iluminação que o valorize.

Como se sabe, o jardim foi detonado em nome do progresso e da, vejam só, qualidade de vida. Foi construída uma pista exclusiva para ônibus e uma série de alças que vão desviar os carros do balão, numa enorme estrutura viária.
 
A má notícia é que, quem passar de ônibus por ali não verá nada além das paredes de um túnel que passa por baixo do arranjo. E quem estiver de carro, evitando o balão, também verá muito pouco.

Mas notícia ruim mesmo é que deve ser reinstalada por ali a escultura Espaço Cósmico 81, um troço de metal que avacalhou a escala pensada por Burle Marx no local. A escultura é um alienígena; só foi colocada no início dos anos 1980, quando o jardim já estava consolidado. E é feia pra dedéu. Não tem serventia nem para o ferro velho Padre Cícero.

O importante, no entanto, é a volta do jardim. Da última vez que se fez uma intervenção como essa em Brasília — a interligação entre as W3 Sul e Norte — ninguém se preocupou em recuperar os espaços de convivência que havia no local — pista de patinação, tanque para marmanjo brincar de barquinho elétrico e uma pequena pista de aeromodelismo. Passaram o trator e ficou por isso mesmo.

Burle Marx ainda não teve o devido reconhecimento por suas obras em Brasília. É o menos badalado dos quatro cavalheiros — Lucio, Oscar, Athos e ele — que definiram a estética da cidade.

É uma espécie de anti-Oscar. Flores contra o concreto. Niemeyer foi capaz de planejar algumas coisas inomináveis que felizmente não saíram do papel, como o imenso obelisco da rodoviária; foi também capaz de executar algumas obras no mínimo polêmicas, ainda mais para mentes obtusas como a minha.

Admiro Silvestre Gorgulho, não apenas pelo caráter e pela correção, mas pela capacidade de enxergar uma flor do cerrado na Torre de TV digital. Na minha cabeça tosca, será sempre a casa dos Jetsons à espera de um disco voador. Uma concepção de modernidade que parou nos anos 1960. Mas sei que a maioria dá razão ao Silvestre — perdi.
Burle Marx nos libertou da maquete. Com jardins e flores ele deu alma à cidade. Ou estaríamos todos vivendo numa repartição.

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