Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre composições de Ary Barroso

O autora ainda menciona outros artistas de sucesso da antiguidade

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Paulo Pestana Publicação:02/05/2014 06:00Atualização:02/05/2014 08:09
 (Arquivo Pessoal)

Tirem as crianças da sala, por favor, que o assunto hoje é proibido para menores... de 50 anos, pelo menos. É que eu acabo de passar boas horas acompanhado por Ary Barroso — sim, ele parecia presente e até cochichava intimidades, enquanto tocavam os 20 discos da caixa Brasil brasileiro, com gravações originais de 316 canções do compositor mineiro.

Há algo estranho num país em que é preciso esperar tanto para que um Ary Barroso tenha suas canções em exposição permanente. Aí o pensamento viaja a um Brasil, que parecia se reconhecer inteiro, embora estivesse ainda em formação, a partir das vozes de Francisco Alves, Carmen Miranda, Sylvio Caldas, Linda e Dircinha Batista — tantos, enfim.

Ary Barroso era compositor disputado. Mais: um personagem ainda mais rico do que o gigantesco homem biografado por Sérgio Cabral; polêmico, criador de gemas. Foi ele o responsável por trazer a música do interior para a capital da época e por formatar a canção brasileira para o teatro. Para além: é o autor de alguns dos maiores clássicos nacionais, incluindo o verdadeiro hino brasileiro, Aquarela do Brasil.
 
Ainda assim, recuperar as canções originais foi uma lenha. O produtor Omar Jubran, que já tinha se provado um Hércules quando do lançamento integral das gravações originais de Noel Rosa, em 2000, levou 12 anos para completar o trabalho, lavrando acervos de colecionadores e de emissoras de rádio.

É de se perguntar para que servem Ministério da Cultura, secretarias, fundações, tantas emissoras oficiais, museus do som e que tais se não se consegue organizar e disponibilizar o tesouro nacional que é nossa discografia. Tudo sempre depende de sujeitos como Jubran.

Há uns bons anos conheci Francisco Aguiar (o Chico da Moto), dono de uma tradicional loja do Rio, que começou a lançar discos com registros antigos. Ele gostava mesmo de marchinhas de carnaval e de Francisco Alves. Lançou algumas dezenas de LPs, perdeu mais dinheiro que ganhou, rompeu a barreira dos CDs, continuou perdendo dinheiro, mas recuperou uma penca de gravações que pareciam perdidas.

A quixotesca ação de Chico só foi possível quando conheceu Ayrton Pisco, como ele apaixonado por música, mas principalmente por áudio. Pisco desenvolveu um sistema de supressão de ruídos que possibilitou o relançamento de gravações retiradas de gastos discos de 78 rpm. Tinha um estúdio no bairro de Santa Teresa (RJ), onde exercitava extraordinária paciência, muitas vezes juntando fonogramas de fontes diferentes para recuperar uma única canção. Hoje não precisa nada disso: três softwares fazem tudo.

Pisco também trabalhou com Leon Barg, um dos maiores colecionadores do Brasil, criador do selo Revivendo. Estive duas vezes com “seu” Leon; sabia tudo da música brasileira e tinha orgulho da coleção com 120 mil gravações — sua obsessão era completar a discografia brasileira de 78 rotações. Lançou mais de 400 discos com canções recuperadas sem qualquer apoio oficial, enfrentando os moinhos de vento da burocracia e, pior, humores de herdeiros. É melhor cantar: “Quem não quebra se enverga, a favor do vento...” (De Qualquer Maneira, Ary Barroso e Noel Rosa).

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