Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana abre o jogo sobre a Copa no Brasil

Autor fala como é a reação dos variados tipos de brasileiros com a chegada da Copa

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Paulo Pestana Publicação:16/05/2014 06:00Atualização:15/05/2014 12:36
Cronista Paulo Pestana fala sobre a Copa na rotina dos brasileiros (Arquivo Pessoal/Divulgação)
Cronista Paulo Pestana fala sobre a Copa na rotina dos brasileiros

Vinha distraído entre as gôndolas do supermercado quando de repente parei no balcão de congelados. Uma caixinha chamou a atenção. Não pela embalagem ou pelo produto, muito menos pelo fabricante, mas por causa do escudo da CBF que jazia sob a crosta de gelo que se formou ali, com os dizeres: o escondidinho oficial da Seleção Brasileira.

Sim, agora vamos comer carne moída e batata com a mão no coração, como manda a cartilha do espírito cívico. Só não dá pra cantar o hino porque não se deve falar de boca cheia.

Como diria o velho locutor esportivo: o que é isso, minha gente? É um desses paradoxos: Copa do Mundo, pra quem gosta de futebol, é um estorvo. Aparece gente de todo canto para botar defeito até no tatuzinho. E pra vender escondidinho.

A senhora desce do salto 15 e se dispõe a analisar a Seleção convocada pelo Felipão pelos critérios mais esquisitos: "O David Luiz, antes de ser chamado, tinha que cortar aquele cabelo", me disse a madame ainda cheirando a laquê. "Henrique?, que absurdo!", falou a moça no elevador. Nunca a tinha visto.

Por todo canto, tem alguém disposto a falar de futebol, derramando sabedorias de segunda mão, lugares-mais-do-que-comuns - tudo fora de lugar. Ligue a televisão, procure um programa de culinária e, está lá, Copa. Na missa, outro dia, o padre fez uma analogia entre solidariedade e... Futebol. Tem até cerveja climatizada, ou algo assim, na Granja Comary, onde a seleção vai treinar. Não sei ainda muito bem, mas isso deve ser alguma coisa muito importante.

Fui à banca de jornais e havia uma quase fila. Eram senhores; de bermuda, mas ainda assim senhores. Peguei meu jornalzinho e perguntei ao rapaz o que era aquilo. "Estão esperando chegar o rapaz que vai trazer as figurinhas", me disse. Eu, que não sei de nada, inocente, falei: "Ah, para os filhos". Não era. Olhei para o bolinho (a fila já era) e estavam lá os senhores trocando figurinhas. Delirei e já estava vendo aqueles vetustos homens de bermudas sentados no chão jogando bafo - uns trapaceando, passando cuspe na palma da mão.

Para quem gosta de futebol - e olha que eu não posso ver um racha de sem-camisas contra os com camisas sem parar para dar uma espiadinha - é um pouco demais. A catarse coletiva é até bonita; o que chateia é ter que explicar para a patroa a lei do impedimento (e é a mesma explicação dada na Copa passada e na anterior, quando ela balançou a cabeça como sinal de que havia entendido).

Está certo que o Brasil inteiro está calçando chuteiras e que todos parecem à procura de canelas argentinas para bicar, mas ainda acho um pouco demais ter um escondidinho oficial para o nosso escrete. Ainda mais congelado.

Aqui, do meu cantinho, eu só espero que o jogo da Seleção apareça e não fique, como a carne moída, sob o purê de batatas.
E olha que eu nem falei da cueca da sorte - verde!

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