Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana desabafa sobre a boa e antiga literatura

"Hoje se lê e se escreve muito, mas apenas nas redes sociais; e a cada dia de forma mais resumida, muitas vezes com ícones", diz o autor

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Publicação:23/05/2014 06:00Atualização:22/05/2014 12:17

 (Arquivo Pessoal)

Homessa! estão mastigando a leitura; Machado de Assis para as massas. A polêmica da adaptação de livros clássicos brasileiros para que possam ser compreendidos por leitores menos letrados é o que Shakespeare chamaria de muito barulho por nada — o inglês mesmo, aliás, já sofreu (algumas vezes, literalmente) várias adaptações.

O objetivo, se eu entendi bem, é substituir palavras, expressões e, quem sabe, parágrafos inteiros, para que Machado e José de Alencar possam ser compreendidos por qualquer um que tenha se formado no mobral. É a lei do menor esforço em vigor. Nenhum brasileiro tem direito de se surpreender, dado os líderes que temos escolhido.

O velho Machado é um dos maiores escritores do mundo, mas não vem sendo lido. Portanto, qualquer coisa que lembre as pessoas de tirar a poeira dos livros vale ponto. E, ademais, o original continua disponível em praticamente todas as bibliotecas públicas do país e, grátis, na internet. Mas fico curioso: será que vão mudar o nome de d. Evarista e do boticário Crispim? — afinal são nomes em desuso, tanto quanto algumas palavras do texto.
Quando menino, ficava embevecido ao ler a série Edição Maravilhosa, da editora Ebal, que trazia adaptações de grandes romances em histórias em quadrinhos. Foi o primeiro contato com Os Três Mosqueteiros, Nada de novo na Frente Ocidental, David Copperfield e dezenas de outros textos.

Ainda guardo a edição de Iracema, de José de Alencar, magnificamente ilustrada por André Le Blanc (que adaptou também outra obra do cearense, Ubirajara). Vários outros livros brasileiros foram adaptados, como Menino do engenho (José Lins do Rego), O sertanejo, O gaúcho (ambos de Alencar), Escrava Isaura (Bernardo Guimarães) e muito mais.

Adolescente, reencontrei esses livros na forma original; foram lidos com a avidez de quem já era um próximo e se tornou íntimo. Ou seja: as adaptações me levaram aos originais, foram responsáveis pelo desejo despertado.

Foi diferente com Monteiro Lobato. Ainda pré-adolescente, era difícil a batalha contra algumas palavras e, principalmente, expressões. Em A chave do tamanho, por exemplo, Emilia constata um acidente: “Tudo levou a breca”. Tive que consultar a mãe.
Recentemente a Editora Globo colocou no mercado algumas edições das aventuras dos netos de Dona Benta que vinham com “traduções” nas margens das páginas.

É curioso, no entanto, que, sempre que a televisão faz uma adaptação literária para uma novela, ninguém reclama; ao contrário, há um aplauso coletivo. E os roteiristas da tevê têm que mexer pra valer no texto original, muitas vezes, criando personagens que nunca frequentaram o mundo do autor original.

Nessa história toda, eu só não sei se as adaptações vão atrair os não leitores. Hoje se lê e se escreve muito, mas apenas nas redes sociais; e a cada dia de forma mais resumida, muitas vezes com ícones (os chamados emotions) substituindo a língua, como se voltássemos ao tempo da mímica. Sem contar com aqueles ridículos k em série, emulando uma onomatopeia de risada — quem ri daquele jeito além da bruxa Meméia?

E como diz o próprio Machado: “E vão assim as coisas humanas”.

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