Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Pestana fala sobre brinquedos que faziam parte da infância antiga

Segundo o autor, as crianças atuais nem imaginam o que era usado como diversão nos tempos passados

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Paulo Pestana Publicação:30/05/2014 06:00Atualização:29/05/2014 12:25
 (Arquivo Pessoal/Paulo Pestana)
A menina não tinha mais que 8 anos. De pé, compenetrada, tentava acertar o toco no buraquinho da bola de madeira, amarrada por uma cordinha. É admirável: ainda tem criança que brinca com bilboquê. E não era uma novata no brinquedo; acertou várias vezes.

Também perto do meu camarote de plástico, um garotinho pouco mais velho treinava o jogo de finca com um pedaço de vergalhão na mão, perfurando o chão nu com insistência. Duas vezes admirável. Eu estava na Feira da Ceilândia: é onde a gente vê coisa que achava que não existia mais. Até penico, que não é brinquedo, tem lá.

Nenhum desses brinquedos têm o fascínio das cores, movimentos e sons dos jogos de vídeo e, ao contrário daquela velha conversa de camelô, requerem prática e habilidade. Em comum, apresentam os perigos do mundo real — me lembro de gente com a cabeça machucada por um golpe da bolinha do bilboquê; da finca, então, nem se fale.

E ainda havia o teco-teco, aquelas duas bolinhas de resina unidas por uma cordinha eram deslocadas para o alto e para baixo e, de vez em quando, se enrolavam no pulso – deu muito trabalho para os ortopedistas da época. Viver era muito mais perigoso.
Mas eu não estava em Ceilândia para remexer na memória ou comprar brinquedos de antanho — até porque a última vez que fiz isso e dei para meu afilhado um daqueles bonequinhos que ficam dando piruetas entre duas varetas enfrentei um dos mais graves olhares de desaprovação da vida. Isso é lá presente?

A Feira de Ceilândia — eu estava lá pelo seguinte motivo: ali estão alguns dos melhores petiscos para acompanhar uma cerveja. Frituras, cozidos, algumas refeições inteiras, incluindo a melhor paçoca que se pode comer fora do Piauí. E a tripa de carneiro frita na banha é ainda melhor que a do mercado do Núcleo Bandeirante.

Ali só não resolveram o problema da pinga. Embora a Paraíba produza algumas das melhores aguardentes brasileiras, é difícil beber ali alguma coisa que não queime as entranhas e provoque engulhos ou, no mínimo, uma careta. E, vamos combinar, pinga não é para isso.

Mas a constatação é que a cidade mudou muito. Há uma nova gente morando ali. É como acordar e ver tudo diferente, tão repentino foi. Aconteceu o mesmo com Brasília. Faz pouco tempo, quando se chegava a qualquer lugar custávamos a nos sentar, tantos eram os cumprimentos.

Hoje são caras inéditas, desconhecidas. Cada vez mais. Desconfio que é o que chamam de progresso. E nós, velhos de guerra, que procuremos nosso lugar.

É como a história do cemitério dos elefantes. Dizem que os paquidermes, quando se sentem obsoletos, se encaminham todos para o mesmo lugar e ficam lá, à espera do sono eterno. Ainda não cheguei a tanto, embora esteja ligeiramente fora do peso. Mas tenho ficado preocupado porque, se alguém quiser me encontrar, estou sempre nos mesmos lugares: no Bar do Silvio ou no Butiquim do Tuim. Garanto que são melhores que o Campo da Esperança.

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