Brasília-DF,
18/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre a Copa do Mundo e outros mundiais

O cronista fala sobre manifestações, torcedores e expectativas para o mundial

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Publicação:06/06/2014 06:03Atualização:05/06/2014 14:48
 (Arquivo Pessoal/Reprodução )

A mocinha se aproximou suavemente e eu já estranhei — faz tempo que mocinhas não se aproximam; os cabelos grisalhos não ajudam, o jornal aberto e a cabeça enfiada nas páginas menos ainda. Ainda assim ela não se intimidou:

— bom dia. Estamos organizando um protesto contra a Copa, o senhor quer participar? Veja o absurdo que é a construção desses estádios, a expulsão de famílias... — veio aquela ladainha toda, discurso pronto, mal elaborado, embasado em premissas falsas.

Quase que eu a interrompi para perguntar de que lado o Caetano Veloso estava — é uma boa bússola, normalmente eu fico do outro lado. Enfim, deixei a moça falar. E fiquei me lembrando da estagiária da PUC, a personagem rodrigueana de cabelos nas axilas e pés rachados — tergiversei: como será que se dá a reprodução dessa espécie?

No final, fiz aquela cara ensaiada para enfrentar vendedor de seguro, e polidamente disse que não participaria, porque — mesmo que eu aceitasse esses argumentos todos — no primeiro gol brasileiro eu iria pularia, gritaria, vibraria (como vou) e ficaria totalmente desmoralizado. O protesto iria para as cucuias. Voltei para minha cerveja.

Não gosto de torcedor de futebol — boa parte deles forma uma horda irracional; são Mister Hyde fantasiados de doutor Jeckyll. Sei disso porque fui um deles antes de o meu time acabar. (Hoje sou como um ronin, aqueles guerreiros do Japão feudal que perderam o mestre e preferiram evitar o suicídio honroso — harakiri que nada, prefiro torcer por um time de curling. Tergiversei de novo.

Dizia: não gosto de torcedor, mas gosto menos ainda de ativistas que querem vencer pela força, hooligans políticos, ou melhor, que são usados como massa de manobra e acham que estão defendendo os oprimidos na marra. É um discurso que já encheu as medidas, quase tanto quanto essa febre de hashtags — ô coisa chata; só serve para desmoralizar a cerquilha, que é aquele simbolozinho que fica em cima do 3 nos teclados.

Não sou dado a patriotadas, galvanices e quetais. Não acredito que a pátria está ali representada — não são soldados. Mas é a nossa gente bronzeada que está em campo, de amarelo e azul, para mostrar o seu valor. Tudo bem que os salários nos distanciam deles —, mas são ídolos, merecem.

Outro dia, no rádio, o comentarista dizia que acreditava que se o Brasil fosse eliminado, os jogadores não sentiriam nada, voltariam para suas mansões, tirariam seus carrões da garagem e fim de papo. Comentarista de futebol — vale um parêntese aqui, é o único jornalista que tem licença para dizer bobagens (pensando bem, os cronistas também).

Na certa o nosso comentarista queria que os jogadores, se derrotados e, diante da tragédia nacional, se perfilassem e cortassem o abdome em L, para que as vísceras ficassem à mostra.

Lembro-me de que antigamente a esquerda dizia que o futebol é o ópio do povo; hoje é a direita que alerta para os perigos estupefacientes do esporte. Por mim, podem dizer o que quiserem; eu quero ver o time ganhar. Depois eu vou pra passeata — comemorar.

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