Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre o encanto dos gansos; entenda

No texto, o cronista usa como personagem, o ator Murilo Grossi

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Paulo Pestana Publicação:13/06/2014 06:00
 (Arquivo pessoal/Reprodução )
A ferocidade dos gansos é proverbial. São penosos bipolares, violentos e com cérebro de galinha — acredito que, na linha evolutiva, estão na companhia de amebas e dos lutadores de MMA, mas, como não sou zoólogo, não tenho a comprovação científica desta evidente verdade. De qualquer forma, são bichos bravos, distantes da imagem que Charles Perrault passou às crianças, quando escreveu sobre a plácida contadora de fábulas. Mas a narrativa que se segue é sobre um ganso sensível, delicado — bailarino. Sem nome, coitado. Mas que, ainda assim, anônimo, foi encantado.

Devo esclarecer que não sou testemunha ocular da história que se segue, mas, repórter, estou acostumado a narrar experiências alheias. As fontes são confiáveis e variadas; há fotos – com a mesma nitidez daqueles flagrantes de discos voadores; não importa: ainda assim, fotos. Enfim... é uma história que não pode deixar de ser contada.

Murilo Grossi — todos conhecem, pois não? Ator de teatro, novelas, figura onipresente na vida da cidade. Também músico. Munido de um saxofone, distribui canjas onde houver uma roda animada de parceiros que mereça ouvi-lo. Assíduo no Espaço Musical Coqueiro — que vem a ser a varanda do predinho onde fica o No Grao, também conhecido como Bar da Baixinha —, Grossi foi convidado para um convescote numa fazenda. Convite irrecusável; haveria hospedagem, camaradagem, comidinhas, bebidinhas. E música.

Agasalhou o sax alto no estojo, separou a melhor palheta e tomou rumo. Começa a festança. A noite ia alta, e o céu, risonho, como cantava Vicente Celestino. Choros, valsas, sambas e canções enchiam o ar, quando Murilo Grossi emitiu uma nota mais aguda — era, na verdade, um acorde. A qualidade do sopro já é bem conhecida de ouvidos humanos e enlevava os presentes. Eis que o inusitado se fez presente.

O som de Grossi conquistou os tímpanos e as emoções do ganso mais bonito da fazenda, que se aproximou mansamente da roda. Repito: não tem nome, o emplumado animal; ninguém dá nome a gansos, galinhas, pombos e canários. O fato é que, encantado como os ratos do flautista de Hamelin, a ave deixou-se envolver pelo som do sax alto. E rodopiava como os cisnes moribundos de Tchaikovsky — era um Nureyev em penas, um Barishnikov de rugosas patas. Sim, o cisne dançava.

O encantamento fez um ricochete e atingiu o músico-ator, que passou a tocar ainda mais compenetradamente, variando timbres, buscando novas notas, como se os demais comensais não estivessem mais ali. Só o ganso importava. Murilo Grossi, humilde, assumiu a postura coadjuvante e entregou-se ao protagonismo do inominado ganso.

A festa acabou, Murilo Grossi voltou à cidade — no domingo seguinte, como quase todos os domingos, marcou ponto com seu sax no Bar da Baixinha (que fica no comércio do canteiro central do Lago Norte, na altura da QI 13) e voltou a tocar para humanos. Era, no entanto, um ser renovado. Na roda, caprichou nos solos e demonstrou aptidões que ainda não eram conhecidas dos músicos que tocavam sempre com ele. Não era para menos; ele agora sabia: era um encantador de gansos.

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