Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre a Copa do Mundo no Brasil

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Paulo Pestana Publicação:20/06/2014 07:00
 (Arquivo Pessoal)

Desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa da Fif... — opa, eu não sei se posso colocar o nome aqui; não tenho dinheiro pra pagar royalties. Mas, sim, desde então, temos convivido com uma obsessão: o legado. O que nos sobrará desta festa do mercado aberto? Eu, sinceramente, espero que nos sobre o título — está de bom tamanho.

Não sou sociólogo, fui péssimo aluno de ciências sociais, mas me formei jornalista, o que, pela tradição, significa que eu tenho diploma (que às vezes vale, às vezes não vale) para dar pitaco em tudo. E chego, afinal, depois de todo esse nariz de cera, no legado.

Mudamos. Pelos primeiros movimentos, a Copa já nos fornece um excepcional material de análise sociológica, uma vez que parece que estamos enterrando de vez a história do ópio do povo, do pão e circo. Independentemente da ideologia, aprendemos afinal que política é uma coisa e seleção de futebol é outra.

Só falta agora separar protesto de falta de educação.

A Copa no Brasil — apesar da argentária interferência da Fif... (opa...) em tudo — está mostrando que patriotismo e patriotada são coisas diferentes. É possível torcer pelo escrete nacional, usando as cores do lábaro, gritando palavras de ordem e cânticos ufanistas, sem ser acusado de alienado, adesista, entreguista ou outras bobagens.

A verdade é que o esporte é o latíbulo que restou ao nacionalismo legítimo – o contraponto ao pensamento de Samuel Johnson quando disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. É a batalha sem sangue (exceto por alguns beques da roça), a vitória sem rendição — embora a dor de cabeça da derrota insista em latejar.

Quanto ao patriotismo, este sofreu um duro golpe quando o Guaraná Jesus foi vendido para a Coca-Cola.

Fernando Pessoa defendia que sua pátria era a língua; não é mais: hoje se fala informatiquês ou por meio de memes — a redução da capacidade de argumentação, trocada pela objetividade estúpida da resposta imediata e sem reflexão.

Os idiomas estão sendo reduzidos — pode-se imaginar, daqui a pouco, um mundo sem dicionários. Mais grave: o pensamento está sofrendo de grave inanição. Sem preconceito, leia as três frases seguintes:“Estou a divagar, mas eis a falha: os mortos são visíveis apenas pelo terrível olho vigilante da memória. Os vivos, graças aos céus, mantêm a capacidade de surpreender e de decepcionar.”

“Sempre me pareceu ridículo que as pessoas quisessem ficar com alguém só pela beleza. É como escolher o cereal de manhã pela cor e não pelo sabor”.

“Aparentemente o mundo não é uma fábrica de realização de desejos.”

A conclusão é sua. São frases de John Green, escritor norte-americano, must entre os jovens adultos (aprendi que esta é a nova forma de se dirigir aos adolescentes). Os livros dele não saem da lista dos mais vendidos. É importante que alguém segure a chama da leitura, atraindo jovens para a literatura, mas a gente pode ver que a conta está saindo cara demais.

Mais grave é alguém começar um texto falando de futebol e acabar em filosofia barata.

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