Brasília-DF,
23/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana contesta os especialistas que querem palpitar tudo

Segundo o escritor, virou moda querer saber de tudo sobre carnes, vinhos e bebidas

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Publicação:27/06/2014 06:03Atualização:26/06/2014 13:38
 (Arquivo Pessoal)

Paulo Pestana • papestana@uol.com.br

Agora mais essa: um rapaz se aproxima do balcão e, antes mesmo de dar boa noite, me diz que eu não posso colocar mais de três pedras de gelo no uísque. Normalmente eu não estico esse tipo de assunto e saio de fininho, mas ele vinha embalado e desfiou uma ruma de teorias que envolviam o palato e as papilas gustativas, argumentos que não sou capaz de repetir porque não liguei a mínima para o especialista que estava à minha frente.

Eu fiquei pensando — é só um humilde e honesto red; não é um single malte, ou mesmo um blend envelhecido. Tem muita cachaça mais cara que o meu uisquinho e o sujeito vem me falar de gelo.

Caiu a ficha. O fato é inapelável: vivemos a ditadura dos especialistas, sabichões que ficam bolando frases de efeito para impressionar e criar métodos de apreciação. Do alto da nossa ignorância, nos impressionamos com a valorização de um retrogosto que, até outro dia, não passava apenas de uma regurgitada, um involuntário arroto. Ou seja: além do sabor, há o sabor de ré.
As bebidas são os alvos principais. Foi-se o tempo em que se tomava um traguinho apenas para relaxar, para deixar de lado os problemas da repartição e encontrar os amigos. Agora o sujeito tem que apreciar, teorizar, raciocinar e criar uma tese sobre o que está acontecendo no momento em que o líquido desce pela goela.

Começou com o vinho, praticamente uma ciência, onde ganha quem mente com mais criatividade, encontrando exemplos exóticos para justificar nuanças de sabor que, afinal, toda ingestão tem. Regrinhas se espalharam por todo canto. Nem o pobre do cafezinho escapou com essa profusão de baristas e de cafeteiras alimentadas com potinhos coloridos.

Cervejeiros são as novas vítimas. Experimente pedir uma Serra Malte estupidamente gelada que — não se sabe de onde — surge um sujeito de jaleco, cheio de canetas no bolso, dizendo que não é assim que se bebe, que a cerveja deve ser conservada a certo grau, sempre de pé e coisa e tal (e isso se tratando de uma bebida que já foi fervida e congelada — pasteurizada, pois — antes de sair da fábrica).

Os especialistas não se limitam às bebidas. A carne, estou sabendo agora, deve ser apenas selada; por dentro, vermelhidão total. Mas é o seguinte: não sou vampiro. Continuo preferindo um filezinho ao ponto, nem cru, nem torrado. Mas, a cada dia, o olhar do garçom é mais feio.

O que preocupa mais é que os especialistas estão se espalhando, criando novas portas para entrar na vida de cada um, nos pressionando a seguir determinadas etiquetas, que vão mudando de acordo com as conveniências – deles!

Houve um tempo em que nos ensinavam que, para tomar um bom chope, era preciso ter um copo de vidro ou cristal finíssimo. Como eles se quebram com muita facilidade, a maior cervejaria do Brasil tratou de espalhar que chope tem que ser tomado em calderetas, nome que deram a copos de vidro tão grosso quanto resistente. E eu, besta, acredito.

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