Brasília-DF,
18/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre Brasília durante a Copa do Mundo

Na visão do escritor, os brasilienses estão mais orgulhosos de morar na capital do país após o mundial

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Publicação:04/07/2014 06:01Atualização:03/07/2014 13:39
 (Arquivo pessoal)

 
Até a Copa do Mundo, Brasília era vista, de fora, como uma maquete. Nós, por analogia, seríamos bonequinhos de Lego. A imagem desmoronou. O mundo viu a verdadeira alma brasiliense, um povo tão acolhedor e caloroso quanto qualquer outro; ou mais, segundo a impressão dos estrangeiros.
 
É bonito ver o brasiliense reassumir o orgulho da sua cidade. Há pouco tempo, muita gente escondia o fato de morar em Brasília. Agora, essas mesmas pessoas fizeram da Copa a festa da redenção, enchendo o belo Mané Garrincha, fazendo festa ao lado de outras torcidas.

A Copa fez com que a cidade ganhasse obras importantes, mas nada que se compare à recuperação da autoestima. A alma brasiliense foi exposta, escancarou-se. Brasília é o cadinho do Brasil, como sonhou o fundador; mas ainda pairava sobre nós a desconfiança, embora disforme como uma bruma densa e estranha, como se estivéssemos em Avalon — preconceito. Acabou, podemos dizer que a cidade é maior que a capital.

Antigamente — vejam só, já podemos falar assim —, dizia-se que a aproximação com Brasília era feita em estágios. Inicialmente, era o deslumbre do espetáculo urbano, seguido de uma depressão causada pela falta de calor humano, mas acabava em paixão arrebatadora, o abraço definitivo, que transformava o cidadão em brasiliense. E também é muito bom ver que o grande ponto de encontro da cidade nesses dias de futebol é a Feira da Torre. A cidade está se encontrando ali.
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Maria Lúcia me ligou, indignada. E poucas pessoas cultuam a indignação tanto quanto ela, quase uma profissional no metiê. Conseguiria fazer uma passeata de protesto sozinha e, ainda assim, agregar apoios. Dessa vez, o motivo da indignação era o mesmo de tantos brasileiros: Galvão Bueno, o mais amado e odiado narrador esportivo da tevê.

A reclamação é a história do hino a capela que os torcedores estão cantando nos jogos da Seleção e que o locutor descobriu agora. Mas D. Maria Lúcia, que acompanha todos os esportes, em canchas, campos e tevê, lembra que essa onda de completar o meio-hino que os esportes insistem em mutilar vem dos jogos da Seleção de vôlei.

De fato, a torcida do vôlei, bem mais feliz que a do futebol, vem cantando o hino todo faz tempo. O Galvão é que vinha comendo mosca. Mas a indignação de D. Maria Lúcia vai além. Mas aí eu já acho que é implicância: ela diz que o narrador global, que agora trabalha na redenção do goleiro Júlio César, foi o principal agente da desgraceira do jogador na Copa da África, quando disse, aos quatro ventos, que foi ele o culpado pela desclassificação brasileira.

D. Maria Lúcia, que já fez curso de árbitro da Federação Metropolitana de Futebol, sustenta que a culpa deveria ser dividida com Felipe Melo, que atrapalhou o goleiro brasileiro no lance fatal. Eu, no cantinho do sofá, sigo impressionado com a memória da dileta senhora. E achando que esse negócio de decidir jogo em disputa de pênaltis deveria ser proibido pelo Conselho Regional de Medicina.

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