Brasília-DF,
17/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre o drama após a Copa do Mundo

Diminuir Fonte Aumentar Fonte Imprimir Corrigir Notícia Enviar
Paulo Pestana Publicação:18/07/2014 08:00
[FOTO1]
Agora, o drama

As guerras devem ser travadas no exterior, nunca no próprio território, ensinou Henrique V, soberano britânico. Em seu país, a paz era mantida. Conquistou a França na batalha de Azincourt, depois de cobrir o chão com corpos de príncipes e nobres franceses. A história do monarca foi narrada quase 200 anos depois de ocorrida, por Shakespeare. E ainda é encenada e filmada, 400 anos depois.

daqui a dois séculos, portanto, há de aparecer um dramaturgo para narrar o massacre alemão em terras brasileiras. O elemento temporal é fundamental para que as feridas sejam devidamente lambidas, para que a tragédia assuma sua verdadeira dimensão.

O mau futebol apresentado pelo escrete não me interessa; o importante é o drama. As reações pessoais. Na internet, está registrada a imagem de um homem preso e algemado, cheio de feridas no corpo, mas que só reclama da dor da alma, humilhada. As redes sociais ficaram coalhadas de piadas, algumas muito infames, que serviram como lenitivo. São histórias ricas.

Seis minutos — seria o título da coleção dramática. Na Copa de 1950, o impacto foi limitado aos presentes ao Maracanã e à transmissão pelo rádio; desta vez, foram dezenas de milhões de brasileiros impactados no mesmo instante. O país foi testemunha ocular da tragédia, multiplicando sensações e sentimentos.

As crianças foram poupadas em 1950. Algumas choraram ao ouvir a derrota pelo rádio. Dessa vez, os pequenos viram seus ídolos massacrados, lágrimas escorrendo nas bochechas de David Luiz, a convulsão de Oscar, o olhar impotente e estupefato de Marcelo, as palavras balbuciadas por Fred: “Caraca, véi”.

As explicações dos especialistas não valem de nada, as mudanças de personagens que certamente virão valem menos ainda. Muito menos valem as análises político-sociológicas que enxergam na Seleção o retrato do mau humor nacional. O que interessa de verdade é o que se passou dentro de cada um de nós, sensações ainda a serem ruminadas para serem transformadas em ensinamentos pessoais e intransferíveis.

A Copa de 1950 rendeu livros, peças, ilusões. O Brasil parecia querer enxergar num jogo de futebol toda a alma de seu povo, expiar todas as frustrações entre quatro linhas e numa alegada falha do goleiro. Oito anos depois, com a primeira taça (ainda não era Copa), deu-se o inverso, e uma onda ufanista invadiu nossos corações, com marchinhas de júbilo e homenagens aos atletas transformados em heróis — com brasileiro, não há quem possa!

Dessa vez, poderia ter doído menos, já que não era o jogo final. Mas a tragédia se deu na chuva de gols. As crianças já estão recuperadas; não houve trauma maior do que o choro convulsivo e imediato. As senhoras que só enxergam o futebol durante a Copa também.

É preciso entender que o futebol não espelha o país — ainda mais esse futebolzinho. E vamos ouvir muita bobagem antes de alguém se ocupar do essencial: o drama, as vítimas.

Isso posto, o importante é que ninguém mais queira fazer uma Copa do Mundo no Brasil. Guerra a gente só faz fora das nossas fronteiras.

COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva dos autores.

BARES E RESTAURANTES

CINEMA

TODOS OS FILMES [+]