Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana fala sobre a flora de Brasília, capital do país

'E leio no jornal que o Distrito Federal ganhou mais de 100 mil árvores este ano, plantadas em parques de preservação ambiental e em áreas de convivência"

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Paulo Pestana Publicação:25/07/2014 06:04Atualização:24/07/2014 14:04

 (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Se você é daqueles que olham para baixo, verá que Brasília está cinza; a grama perdeu o viço, está quebradiça e contribuindo para a névoa seca que começa a se formar. Se você é dos que olham para cima, vê as novas cores da paisagem. Ipês roxos e amarelos começam a florir (os brancos estão ainda tímidos) e as quaresmeiras se abrem na antecipação da primavera característica do planalto.

Ainda é cedo para tanta flor, mas a natureza sabe o que faz. E, mesmo com todo esse espetáculo, estou consternado com o pé de cajuzinho do cerrado do meu quintal. Valente, ele abriu flores e deu frutos — mas isso foi há dois anos; primeira e última carga de caju azedo, quase toda consumida como tira-gosto de pinga.

Desde então ele, o cajueiro, morreu em vida. Não suportou o cloro, disse o homem-que-entende-de-árvores que ganha a vida com podas. A muda foi plantada perto de uma pequena fonte, que precisa receber pedrinhas de cloro para não virar um criadouro de mosquitos da dengue.

O homem-que-entende-de-árvores só não explicou por que a pitangueira, que fica do outro lado, mas a mesma distância da água clorada, está tão bonita, com pequenos brotos que daqui a pouco serão frutos. São mistérios que eu só acompanho como curioso. Faço cara de inteligente e finjo entender.

A consternação é porque o cajueiro terá que ser erradicado. Não há nem como transplantá-lo para outro canto. Ele não suportaria porque as folhas estão todas enferrujadas e os vasos internos, entupidos. Vou ter que encontrar uma nova muda de cajuzinho do cerrado.

A natureza, no entanto, sempre encontra um meio de nos compensar. E, embora consternado com o cajueiro, estou encantado com a jabuticabeira que plantei faz tempo e surpreende com uma safra temporã. Primeiro foram olhinhos verdes que apareceram no tronco e nos galhos. Em seguida, surgiram os frutos.

Não é uma árvore enxertada. Chegou ainda miúda, natural de Anápolis e já deu muitos frutos. Mas nunca em julho, nunca em plena seca. De qualquer modo, me obriga a ser rápido. É preciso disputar os frutos com os passarinhos e principalmente com os morcegos, que podem ser cegos, mas não são bobos e moram no sótão lá de casa. Pelo menos estou livre dos soinhos (é assim o plural de soim?), que preferem outras frutas.

E leio no jornal que o Distrito Federal ganhou mais de 100 mil árvores este ano, plantadas em parques de preservação ambiental e em áreas de convivência. A notícia é melhor porque estão plantando mais árvores frutíferas e menos espécies ornamentais.


Gosto de ipês, acácias e espinheiros e até entendo a importância delas para os olhos. Mas prefiro amoras, pitangas, mangas e outras frutas que não são do cerrado, mas se deram muito bem por aqui. Como muitos de nós, aliás. E tem mais: outro jardim projetado por Burle Marx em Brasília foi recuperado com a reforma da praça da Torre de TV. Mais uns meses e toda a exuberância estará à vista.

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