Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana questiona sobre os músicos criados em rodas de bares

"Há sempre um músico novo na roda; ainda esses parecem ter o repertório pronto e encerrado há mais de três décadas"

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Publicação:01/08/2014 06:01Atualização:31/07/2014 13:54
 (Arquivo Pessoal)
É como se o tempo tivesse parado. Vários violões, dois bandolins, um cavaquinho, flauta e muitos — muitos mesmo — instrumentos de percussão (de pandeiros com platinelas tilitando de novas a vagens secas de acácia imperial). A música preenche os espaços com delicadeza quando alguém puxa mais uma: Violões em funeral, canção que Sebastião Fonseca e Silvio Caldas fizeram em homenagem a Noel Rosa.

Quase ninguém sabia a letra. Mas não importava. Quem não tinha instrumento batucava ou fechava os olhos, enquanto na mesinha do lado eu conversava com meu amigo imaginário — desde os 6 anos de idade, eu tenho um amigo imaginário e, ao contrário da maioria dos adultos, nunca o abandonei (mesmo quando a mãe de santo o confundiu com um erê que não me deixava amadurecer).

Eis que o que eu queria saber meu amigo imaginário também não sabia. Daí eu apelei para o Fernando Lopes que, ao lado, bebericava uma caninha goiana de Orizona que ele mesmo foi buscar: “Por que ninguém mais puxa uma música nova numa roda?”, perguntei. Fernando me olhou e, do fundo da sua sabedoria, com a fleuma de um monge budista, me respondeu com outra pergunta: “Que música nova?”. E o violão puxa Pois é, pra quê?, do Sidney Miller, compositor que só não está inteiramente esquecido porque virou nome de teatro, no Rio.

Não faz muito tempo — ou faz, sei lá, porque o tempo anda passando muito depressa — nas rodinhas de violão sempre tinha alguém disposto a mostrar “a última do Chico”, ou do Gil, ou do João Bosco. A ratatuia se recolhia por uns instantes, até aprender a música e já a incorporava ao repertório (ou não; lembro-me da insistência de um amigo em tocar Corrente, de Chico Buarque — tocou uma, duas vezes; não colou, embora seja um belo samba).

Uma canção para ser incorporada a uma roda tinha que ser de assimilação rápida, mesmo que tivesse uma estrutura mais complexa — casos de canções com contracantos que faziam metade da roda cantar uma parte e a outra metade cantar a outra sobre a mesma base (Samba em Prelúdio, de Vinícius e Baden, e Andança — a recordista mundial em execuções nas rodinhas de acampamento — são os exemplos clássicos).

Não sou saudosista, gosto de música nova. Silva é uma bela surpresa, o paulista Marcelo Perdido, com perdão do trocadilho, é um achado, Cícero começou bem e, na seara do samba, Moyseis Marques, que já tem estrada, é ainda um cantor muito maior que o compositor. Mas nenhum deles tem vaga numa rodinha; não dá pra imaginar alguém chegando e sacando: “Conhecem a nova do Silva?”. O meu amigo imaginário, que raramente concorda comigo, desta vez aquiesceu, enquanto a roda mandava um bolero: Tortura de amor, de Waldick Soriano.

Há sempre um músico novo na roda; ainda esses parecem ter o repertório pronto e encerrado há mais de três décadas. Não é um lamento — afinal, há um imenso repertório a ser explorado — mas não deixa de ser uma constatação de fim de linha. Nessa hora, até o meu amigo imaginário se cala.

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