Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em meio a era política, cronista Paulo Pestana fala sobre eleições

"Já olhei no olho de muito candidato, procurando a verdade. Vi alguma sinceridade e punhados de mentiras"

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Paulo Pestana Publicação:08/08/2014 06:02Atualização:07/08/2014 13:27

 (Arquivo Pessoal)

A cidade é só sorrisos. Dentes à mostra, candidatos imploram pelo seu voto de boca aberta, todos com dentes que parecem ter saído de um anúncio de dentifrício — era assim, poeticamente, que se chamava a hoje banal pasta de dente —; branquinhos, perfeitos.

As senhoras candidatas aparecem maquiadas, prontas para a festa; os senhores tentam ser reconhecidos como sérios, mas não muito; respeitáveis, mas juvenis de cabelos brancos — sorridentes. E tem a turma dos candidatos jovens. Quase imberbes, tentam o contrário: à falta de cãs, economizam no sorriso para serem levados a sério.
 
Fotos falam; valem mais que mil palavras. Mas não as fotos de candidatos, ainda mais nesses tempos de Photoshop CC, capaz de transformar minhoca em jararacuçu. As fotos dos candidatos são mudas mesmo. E, cá pra nós, é bom que sejam.

Atrás do santinho — nome cada vez mais impróprio para os folhetos coloridos com foto, número e nome — quase sempre vem uma biografia. Quando a gente mais precisa do pessoal que queria vetar biografia não aparece ninguém. Cadê o Roberto Carlos nessa hora?  
Enfim, é um pessoal trabalhador, honesto, reto; seres humanos altruístas, preocupados com o bem-estar alheio, com ideias sobre tudo e soluções tão engenhosas que a gente não sabe como não foram aplicadas antes. Mas, como se diz na xepa, é o que temos.

Tem gente séria? Certamente que sim. Mas também há enrolados, atrapalhados, falsos, vendilhões e fariseus. E como separar esse joio aí, pergunta-me o senhor, retirando o pincenê? Não tenho a menor ideia. Gabriel acaba de fazer 16 anos, vai votar pela primeira vez, tem o título garantido pelas digitais do dedo etc.

Não é exatamente um garoto politizado. Ao contrário, ainda está mais preocupado em manter o topete em pé do que nas decisões que um parlamentar pode tomar e mudar a vida de todo mundo para sempre.

Gabriel não lê jornal; fica sabendo as notícias pela “rede”, que é como ele chama, intimamente, essa confusão cibernética de desinformação. Mas ele não perde tempo com isso; acredita mais nos Guardiões da Galáxia salvando o universo no cinema.

Eleição e Copa do Mundo são assim mesmo. Mesmo quem passa quatro anos sem assistir a uma mísera pelada sai dando opinião sobre o esquema tático da seleção da Croácia. No caso da eleição, o sujeito passa uma temporada olhando para o próprio umbigo e só começa a se interessar pelo assunto para não ficar fora da discussão do botequim. Até as socialites deixam a biriba de lado para falar dos candidatos: “viu como ele envelheceu? O poder acabou com ele; era tão bonito”.

Já olhei no olho de muito candidato, procurando a verdade. Vi alguma sinceridade e punhados de mentiras. Jornalista chega muito perto dessas pessoas e, como até o Caetano Veloso sabe, de perto ninguém é normal. É de se desejar boa sorte não ao candidato, mas ao eleitor. Se bem que pouco depois da eleição a maioria nem lembra em que votou. É bom anotar e guardar na gaveta.

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