Brasília-DF,
20/OUT/2017

Em Crônica, Paulo Pestana fala sobre as supertições do mês de agosto

"Lembro a rima rica repetida por minha avó: mês de desgosto"

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Paulo Pestana Publicação:22/08/2014 06:01Atualização:21/08/2014 13:30

 (Arquivo Pessoal/Divulgação )

Ainda não acabou. Temos pela frente mais uma semana inteira — e mais um pouquinho — de agosto. Se o papa Gregório soubesse que estava criando um mês tão problemático, provavelmente teria deixado valendo o calendário de Júlio César, mesmo com 10 dias a menos. Não sou dos sujeitos mais supersticiosos do mundo, embora apele, de vez em quando, para um pé de pato mangalô três vezes e bata na madeira para isolar mau olhado, que ninguém é de ferro.

Também carrego uma imagem de São Longuinho na carteira para prevenir distrações e esquecimentos. Não me tem adiantado muito; contra a senilidade, parece que a fé não tem tanta força. Ultimamente, tenho me esforçado até para não perder o juízo.

Voltando a agosto, lembro a rima rica repetida por minha avó: mês de desgosto. Era também o mês do cachorro louco, mas isso no tempo que não tinha campanha de vacinação antirrábica e os cachorros, ensandecidos pelo misterioso cheiro do cio, saíam distribuindo dentadas como Suárez e se contaminando na disputa pelo cruzamento.

Mas a fama de agosto não se deve apenas à baba canina. Em 1914, a Primeira Guerra Mundial começou neste mês, assim como o ataque com bombas atômicas contra o Japão e os sangrentos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda. E era quase sempre nos agostos, aproveitando os ventos que os portugueses deixavam o porto para procurar terras além mar, muitas vezes encontrando apenas tormentas e tragédias.

Meu avô não gostava de agosto; gostava de Getúlio — que deu o tiro fatal num agosto. Eu não gosto também, mas por um motivo menos nobre: é o mês que me racham os lábios e me sangram as narinas.
 
E cada vez gosto menos. Não por seguir ou acreditar em epicédios, loas — lembro-me do velho Joaquim Maria em O Empréstimo: “Está morto, podemos elogiá-lo à vontade”. Tragédias não escolhem datas, acontecem todos os dias. A diferença, descubro agora, é que agosto demora a acabar.

Sei que estou atrasado, mas faz poucos dias que conheci o novo disco de Renato Vasconcellos, Piano e caneta. Seria dispensável dizer que é ótimo; uma coleção de peças que mostram a versatilidade de um dos melhores músicos formados na cidade.

Os mais velhinhos hão de se lembrar de Renato no Chakras, conjunto — sim, naqueles tempos ninguém tinha grupo — que ele tinha com Toninho Maia e embalou muitos Concertos Cabeça. Mas ele entrou definitivamente no patrimônio imaterial da cidade quando compôs a Suíte Brasília, uma ode musical à cidade que adotou.

Piano e caneta mostra um músico maduro, com peças espertas em que estão expostas todas as influências de uma carreira que sempre flutuou entre o popular, o jazz e o erudito. A Suíte Brasília está no disco, com seus três movimentos e um novo arranjo, sensacional.
Mathenying é a minha nova favorita; provavelmente amanhã será outra, talvez Felisberto (talvez lembrança do tempo de penetra no Clube da Esquina). Mas é impossível passar incólume pela força de Antes isso do que aquilo. Não perca tempo lendo: vá até www.cdbaby.com e baixe o disco.

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