Brasília-DF,
21/OUT/2017

Em crônica, Paulo Pestana apoia a permanência do Cine Drive-In

O local é um refúgio para quem não aguenta a falta de educação das pessoas que frequenta as salas normais

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Paulo Pestana Publicação:29/08/2014 06:02Atualização:28/08/2014 13:30
 (Arquivo Pessoal)

Eu sou de um tempo em que a gente — menino de calça curta — sonhava ter um Cadilac rabo-de-peixe; um Simca Chambord, que fosse. Queria usar gomalina no cabelo e ter um casaco de couro preto. Odiava ser criança. Era o desejo despertado pelas cenas dos filmes de Annette Funicello e Frankie Avalon. Queria também poder ir ao cinema drive-in, que era a coisa mais distante do mundo para quem não tinha nem penugem sob o nariz.

Nos filmes, o drive-in era ponto de encontro de gente interessante, descolada, que namorava, mascava chiclete e — num tempo que podia — fumava e brigava de navalha na mão. Não, não: quem usava navalha era a turma do Marlon Brando, outra história. De qualquer jeito, faz parte do imaginário de uma geração de miúdos urbanos.

Mas quem já viu um filme numa imensa tela IMax ou 3D, com som surround e imagem digital, pode até considerar que um cine drive-in é coisa ultrapassada, digna de museu. E é mesmo. Até por esse motivo deve ser preservado. E mais: se até a gomalina voltou, agora com o nome de gel, é hora dos cinemas ao ar livre voltarem.

Quando Zé Damata começou a circular pelos cantos do Distrito Federal — e depois do Brasil — exibindo filmes com seu Cinema Voador, era como se fosse um drive-in sem automóvel. Gente que nunca tinha visto uma imagem em movimento fora da televisão ficava impressionada com a amplitude da tela, com a experiência sensorial de invadir outro mundo.

Voltando ao nosso drive-in: é preciso melhorar a tecnologia — o som dispensa a traquitana que era pendurada na janela e já vem pelo rádio do carro, mas a imagem é ruim, notadamente em noite de lua cheia. O drive-in é um refúgio para namorados fissurados, mas também para quem gosta de assistira um filme sem se irritar com o barulho do saco de pipoca do sujeito do lado ou comentários dos namorados que preferiam estar em outro lugar, risinhos deslocados e outros engraçadinhos que confundem sala de cinema com banheiro de rodoviária.

Nas salas de cinema, isso é cada vez mais difícil. A falta de educação parece não ter limite. Não adianta pedir para deixar os telefones celulares desligados e fazer silêncio — talvez por isso o volume e os efeitos sonoros sejam ainda mais invasivos. Mais um pouco, com os óculos 3D, vão ter que distribuir fones de ouvido.

Por tudo isso, e como não sei onde está o abaixo-assinado, quero deixar aqui a minha assinatura virtual em apoio à permanência do Cine Drive-In no miolo do autódromo. Há décadas, Marta Fagundes vem brigando com as grandes distribuidoras para ter bons títulos antes das emissoras de tevê a cabo, além de disputar espaço com as grandes cadeias exibidoras — embora no momento que escrevo esteja em cartaz o sofrível Planeta dos macacos; e, heresia, dublado!

O fato é que Brasília não pode perder o Cine Drive-In porque, quando o filme é ruim, a gente tem a opção de ficar vendo estrelas. Até as do céu.


O drive-in é um refúgio para namorados fissurados, mas também para quem gosta de assistir a um filme sem se irritar com o barulho do saco de pipoca do sujeito do lado.

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