Brasília-DF,
20/OUT/2017

Na crônica desta semana, Paulo Pestena fala sobre preconceito no futebol

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Paulo Pestana Publicação:05/09/2014 06:00Atualização:04/09/2014 12:11
 (Divulgação)
 
O futebol é um universo à parte. É capaz de transformar homens e mulheres em animais selvagens e ferozes ou bobos alegres; seres irracionais. A cena da moça gritando macaco para o goleiro Aranha, do Santos, com a fúria dos idiotas, é apenas a mais recente manifestação de estupidez, mas está longe de ser um caso isolado a moça perdeu o emprego, foi expulsa do clube e até de casa, apedrejada como uma Madalena. Saiu no lucro: racismo é crime inafiançável, mas os obtusos não temem a Justiça.

A própria torcida organizada do Grêmio — a chamada Geral — fez questão de manter as expressões racistas com as quais recepciona a torcida do rival, Inter, clube mais identificado com as camadas populares.

Logo o Grêmio, dono de um dos mais belos hinos do futebol brasileiro, composto por Lupicínio Rodrigues, vejam só: um negro. Mas o futebol é uma fábrica de emoções fortes. Amigo meu, Luijorge é um sujeito relativamente pacato. Mas só antes de o Botafogo entrar em campo — e o adversário pode ser o Flamengo ou o Arranca Toco, tanto faz; o Mister Hyde que habita as áreas mais recônditas do cérebro dele aflora com o ímpeto de um impala.

Para se ter ideia da gravidade da situação, de uns tempos para cá, ele não pode ver jogo ao lado do pai, que o iniciou na paixão botafoguense, porque em quase nove décadas de vida bem vivida, ele ainda fica abismado de não conhecer metade dos palavrões que saem da boca do rebento.

Pereira é outro. Mestre em direito, esquece todas as boas maneiras que aprendeu quando o Corinthians entra na cancha. Na verdade, é um caso extremo: quando ele próprio entra em campo, numa pelada qualquer, sai a distribuir impropérios e bordoadas como um Hulk.

Nelson Rodrigues — sempre ele — tentou traduzir a paixão despertada pelo futebol. Não conseguiu pelo fato de, ele próprio, ser um obsessivo. Ele defendia que, antes de 1958, “o brasileiro era um falido do sentimento, um falido da paixão, um falido da esperança”.

Foi só o Brasil ganhar na Suécia, gênios começaram a brotar no território nacional - incluindo Anselmo Duarte, segundo ele, um ex-canastrão chapado, elevado à categoria genial a partir da Palma de Ouro do filme O pagador de promessas. E tudo por causa do futebol.

O futebol é hiperbólico. Não cabe explicação do que ocorre nas arquibancadas, nas reações que igualam gente bem a toscos de nascença e que parecem ser válvula de escape para as frustrações do dia a dia. A moça gaúcha que xingou Aranha não deve ter a menor noção do estrago que ela estava fazendo quando expôs seus demônios; mas nada justifica tamanha
ignorância.

De novo, Nelson Rodrigues: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Mas o preconceito está um degrau abaixo de qualquer indignidade. É a negação da humanidade: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”

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