Brasília-DF,
20/OUT/2017

Veja a crônica da semana com Paulo Pestana em A música da poesia

Há um poema de Augusto de Campos que vive rondando a minha cabeça: %u201CEstou pensando no mistério das letras de música, tão frágeis quando escritas, tão fortes quando cantadas%u201D.

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Paulo Pestana Publicação:19/09/2014 06:25

Não concordo com o poeta concretista que, também autor de canções, simplificou; há letras de canções que sobrevivem sem a música, com tanta força quanto qualquer poesia.


Eu, daqui do meu cantinho, não acredito em poesia sem música — em todo poema ouço uma sinfonia. Até mesmo os de João Cabral de Melo Neto, que sofria de anedonia musical.


Há poetas óbvios entre nossos compositores populares e cada um que trate de escolher seus favoritos na prateleira onde estão Noel, Vinicius, Orestes, Caetano, Wilson, Chico e dúzias mais. São autores de grandes poemas, mas principalmente de versos fantásticos.


E aí chegamos a Lupicínio Rodrigues, que teve o centenário de nascimento festejado no último dia 16. É ele, na minha humilde opinião, o autor do mais inspirado verso da música popular, extraído da canção Esses moços: “Se eles julgam que a um lindo futuro/ Só o amor nesta vida conduz/ Saibam que deixam o céu por ser escuro/ E vão ao inferno à procura de luz”.


São versos que saltam quando impressos ou ditos em voz alta. Brilham ainda mais com o samba-canção que os envolvem e mais ainda com o brilho da poderosa voz de Jamelão e da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo. A gravação original é do rei da voz, Francisco Alves, mas neste caso passe direto.


O gaúcho Lupicínio Rodrigues chegou aos ouvidos do resto do país pela voz de Cyro Monteiro, com a gravação de Se acaso você chegasse, canção que logo seria furtada por uma esfuziante Elza Soares em início de carreira. Mas não há poesia ali; uma bela canção, apenas.


Ele iria mais fundo em Quem há de dizer, gravada por Francisco Alves, em 1948: “Repare bem que toda vez que ela fala/ Ilumina mais a sala, do que a luz do refletor”. E em outras dezenas de canções gravadas pelos maiores cantores da época, quase todas de um mundo alfa, que não existe mais.


Imagine se a Lei Maria da Penha não seria aplicada com toda a severidade se hoje em dia um sujeito dissesse que “as esposas devem se sentir felizes quando seus maridos voltam de suas noitadas, porque sua volta é a maior prova de amor que um homem pode dar”. Era o que dizia Lupicínio, usando a mesma sinceridade de suas canções.


Mas Lupicínio não chegava a ser um misógino; era apenas um machista. Mas fascina as mulheres. Alterna personagens fracas (Ela disse-me assim: “Vá embora, ele pode chegar, está na hora”) a outras fortes (Quem há de dizer: “Ela Nasceu com o destino da lua/ Pra todos que andam na rua/ Não vai viver só pra mim”). Usa mulheres dominadoras (Volta: “Eu não posso dormir sem teu braço, pois meu corpo está acostumado”) a dominadas (Cadeira vazia: “Tu és a filha pródiga que volta, procurando em minha porta o que o mundo não te deu”).


Impossível não cantar com ele.

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