Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica da semana faz reflexão sobre os cientista político durante as eleições

Política é como nuvem, cada hora que se vê, está diferente - existe ciência assim? Nem meteorologia

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Paulo Pestana Publicação:03/10/2014 06:00
Da terceira dose só restavam pedrinhas de gelo e aquela água amarelada no fundo do copo. Foi quando o amigo irrompeu o recinto, com indefectível sorriso, cumprimentando a todos como se fosse um candidato.

— Isso são horas? Marcamos às nove — disse eu.
— Calma lá, meu chapa. Estou na margem de erro.
Aproveitando a deixa malandra, esperei o reabastecimento e lasquei a pergunta:
— Você que tudo sabe me diga: o que faz um cientista político?
Um parêntese, aqui: o meu amigo, além de gaiato, é marqueteiro. E marqueteiro, não sei se todos sabem, não nega resposta — tem sempre uma, sobre qualquer assunto, na ponta da língua. Acuado, atacou:
— Ora, cientista político dá entrevista.

Resposta precisa. Em época de eleições, esses cientistas vicejam como brotoejas em bochecha de bebê, estão em todas as emissoras de rádio e tevê, despejando uma sabedoria científica sobre uma ação que não é ciência nem na China: política. Aliás, na China é que não é mesmo. Dizia Tancredo Neves ou Magalhães Pinto, um desses mineiros espertos, que política é como nuvem, cada hora que se vê, está diferente — existe ciência assim? Nem meteorologia.

Voltando aos cientistas políticos, então. Raramente eles concordam entre si. Ficam dando palpites a esmo, tomando emprestados dados de pesquisas que chutam números para todo lado, repletas de pistas falsas. Parecem comentaristas esportivos em mesa-redonda, sem a menor responsabilidade sobre a própria opinião.

Pois não é que o meu afilhado está fazendo ciência política na universidade? Vou recomendar um curso de retórica pra ele — vai ajudar muito na hora da primeira entrevista.

Amigos — Eu sempre tive inveja de quem sabe fazer amigos. Dizem que é uma arte. E deve ser mesmo; descobrir coisas boas que se escondem por trás de tanta... Humanidade; deixar rolar, passar por cima de defeitos e idiossincrasias. Hoje parece que anda mais fácil fazer amigos, usando o mundo cibernético para substituir as táticas arcaicas.

É muito prático: preenche-se um formulário dizendo todas as preferências — sexuais, musicais, literárias (quando existem), cor favorita, perfumes e alergias. Quem gostar chega perto, aparentemente imune a sustos e surpresas, exceto o fato de que todo mundo mente. E escondidinho mente ainda mais. Ou seja, a diversidade — esse substantivo tão vilipendiado — vai pelo ralo.
 
Só os iguais, com experiências semelhantes, interesses afins e pensamentos alinhados formam grupos. São patotinhas que se fecham cada vez mais às diferenças. Daí, surgem intolerâncias coletivas, amplificam-se os preconceitos e criam-se pequenos monstros de várias cabeças e nenhum cérebro.

Eu prefiro fazer amigos à moda antiga, até porque ainda não sei o que é Instagram. Mas eu não conto. Eu me sinto um marginal porque me recuso a ser informado de qualquer coisa por redes sociais. Continuo preferindo fontes confiáveis. Essas redes me lembram muito dona Tereza, uma antiga vizinha, fofoqueira que só ela, que não sabia de nada, mas falava de tudo. Como diz uma amiga, a internet não é saúva, mas ou se acaba com ela ou ela acaba com tudo.
Tags: celular

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