Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica: os bichos-grilo de Brasília tornam a cidade mais humana

São pessoas que esbanjam gentileza, que dão licença e pedem desculpa, que não gostam de incomodar e principalmente que não confundem atitude e personalidade com prepotência e preconceito

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Paulo Pestana Publicação:10/10/2014 07:00Atualização:10/10/2014 12:50
Eles continuam entre nós. Na minha vã inocência acreditei que haviam sido exterminados, vítimas do fim dos sonhos. Mas não, estão inteiros, plenos, felizes e sonhando: os bichos-grilo, tenho certeza, têm mais chance de escapar de uma hecatombe nuclear do que as baratas.

Dia desses fui comer um churrasquinho na 312 Norte e calhou de ser uma noite em que se apresentariam Sá & Guarabyra, na bienal alternativa que o açougue T-Bone promove no meio da rua. Havia poetas a granel; no cantinho, vendiam livros e camisetas, no palco se tornavam bardos — e, como tais, privilegiavam as notícias ruins.

Em seguida, subiram ao palco Sá & Guarabyra. Dois senhores ainda felizes com o ofício de cantar, mas acomodados: preferiram desfilar os maiores sucessos — e eles os têm a mancheia — a apresentar alguma produção mais recente.

É preciso dizer que os dois estão em atividade desde os anos 1960, quando Gutemberg Guarabyra era um papa-festivais, com canções como Casaco Marrom (que ele cantou) e Apareceu a Margarida (que ele prefere esquecer) e Luis Carlos Sá era um promissor compositor. Eles estavam entre a MPB e o desbunde.

Mas não é sobre eles que vamos falar. É sobre a plateia. Preciso dizer que não sou PM, mas adoro turbas — a distância, bem entendido, e sem violência. Tenho a estranha mania de ficar observando reações, me extasiando com o universo que cada ser humano representa.

Pois bem, eu estava diante de um desfile de bichos-grilos. É gente que fala sozinha, que discute com a sombra; gente com tiques explícitos, com roupas únicas, cabelos transados ou não. E o mais estranho: eles, todos eles emanam uma felicidade tão genuína que a gente, que tem essa bobagem de racionalizar tudo, até dúvida.

Uma jovem balzaquiana — ainda se usa isso? — tinha uma fita amarrada na testa que mantinha os longos cabelos presos, um vestido longo, colorido, e dançava como se estivesse hipnotizada. Olhos fechados, deixava se embalar pelas canções da dupla, tentando acompanhar a letra que ela evidentemente não conhecia. Ainda assim, cantava.

Do lado, um rapaz nos seus 20 e pouco, abria os braços. Os cabelos desgrenhados contrastavam com um cavanhaque bem desenhado. Feliz, ele também não conhecia as canções, porque parece que as emissoras de rádio se esqueceram de Sá & Guarabyra. Mas havia muita gente para cantar com a dupla. Não eram bichos-grilo; eram fãs, outra história.

O melhor de tudo foi saber que os loucos mansos continuam na ativa. São pessoas que esbanjam gentileza, que dão licença e pedem desculpa, que não gostam de incomodar e principalmente que não confundem atitude e personalidade com prepotência e preconceito.

Nos anos 1970, Brasília atraiu um bando desses loucos. Tirante o fato de não gostarem muito de banho e de trocar a roupa, eram pessoas que faziam uma cidade mais humana, mais voltada para o circo do que para o pão. Muitas passaram pelas páginas deste jornal, criando um pensamento mais amplo para a cidade que tentava se descobrir. Brasília deve muito aos bichos-grilo.

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