Brasília-DF,
20/OUT/2017

Confira a Crônica da semana com Paulo Pestana

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Paulo Pestana Publicação:07/11/2014 06:00Atualização:10/11/2014 12:56
Caio Gomez/CB/D.A Press
Caio Gomez/CB/D.A Press
Aconteceu na semana passada. Bilro da Branca pediu a palavra e, aproveitando-se do momento de silêncio, detonou a informação preciosa: hoje é Dia do Saci-pererê. Todo mundo ali sabia que era dia das bruxas, alguns sabiam também que era o dia das donas de casa. O Murilim, carola, sabia que era dia de Santo Afonso Rodrigues.

É uma data animada esse 31 de outubro. Mas, vamos combinar: saci, bruxa, santo, dona de casa, nada disso faz parte do repertório do bar do posto. Bilro ainda tentou retomar a relevância do saci na cultura nacional; foi nas raízes dizendo que originalmente não era um ser peralta como Monteiro Lobato retratou, mas que era do mal mesmo. E que nem merecia um dia para colocar sua carapuça.

Continuava esquisito. Mas foi esse o rumo que as conversas de botequim tomaram depois do fatídico 26 de outubro. O período pré-eleitoral foi animado, colocou velhos companheiros de copo em uma disputa ainda saudável, de pontos de vista.

Mas o resultado apertado teve o impacto de um zero a zero decidido com um gol suspeito aos 48 do segundo tempo. Sabe aquele jogo que quem ganhou não comemora muito, quase pede desculpas, mas quem perdeu fica possesso? Pois é.

A mesa de bar é uma democracia perfeita. Dependendo dos presentes, escolhe-se a cerveja comum — exceto quanto há a presença de uma mulher, não há rótulos diferentes à mesa. Eu, que prefiro sempre a velha e boa faixa azul, me rendo à maioria, desde que não me venham com gracinhas travestidas de Skil ou Schon.

Mudando de assunto, porque aqui não é lugar de polêmica, me peguei observando a casinha do casal de joões-de-barro instalada no alto do poste, perto de casa. Aliás, é um conjugado, um conjunto, sei lá, porque são três portinhas.

Não me lembro de ter visto vizinhos, mas o casal que estava sempre por ali sumiu. O que é estranho, porque na roça se diz que o joão-de-barro é bicho de uma companheira só, para toda a vida.

A fêmea, que também se chama joão, é mais danadinha. Ouvi, num causo de fogueira, que ela trai; e quando o macho descobre, tranca-a no ninho, lacrando a portinha com barro e condenando-a à morte. Não sei no que é mais difícil de acreditar: no castigo fatal ou na fidelidade do macho.
Por um lado, é até bom o sumiço do joão-de-barro porque o canto dele não deixa saudade. Quase sempre em dueto, não há melodia; é uma sucessão de piados esgoelados, um alarido infernal. Diferentemente do canto do chorão que deu de frequentar a pitangueira. Pequeno e solitário, apenas passa pelo lugar — dorme sabe-se lá onde.

No interior de Minas é conhecido como boiadeiro, mas o apelido de chorão vem do canto tristonho, repetido com indolência, que pressupõe um passarinho triste, o que é uma contradição para um bicho que sabe voar. Mas eu tenho pensado: a gente devia chamá-lo de boiadeiro mesmo e deixar o apelido de chorão para os tucanos. Como choram!

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