Brasília-DF,
20/OUT/2017

Cronista comenta os personagens da vida real; leia nas Crônicas da semana

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Paulo Pestana Publicação:21/11/2014 09:26
O brasileiro tem orgulho de dizer que é um povo alegre, diferente. Não é. Temos sido uma nação patética
O brasileiro tem orgulho de dizer que é um povo alegre, diferente. Não é. Temos sido uma nação patética
Uma das ilusões provocadas pela literatura é a de que os personagens ficam confinados ao papel e encerrados no tomo. Não é bem assim. Às vezes eles saem, incorporam na gente. Nos últimos dias, por exemplo, lendo o noticiário, virei o Cândido da Vestfália a procura de seu Pangloss.

São personagens de Voltaire. Pangloss é o filósofo que explica as causas e os efeitos para mostrar que tudo está o melhor possível. Sempre. Cândido, simplório, é levado a uma série de desventuras desde que se apaixonou pela Srta. Cunegundes. Mas a cada revés, lembrava-se das palavras otimistas de Pangloss - é o melhor possível.

Com o passar do tempo, o próprio Pangloss passou a duvidar do otimismo. E da humanidade. "Por que foi criado um animal tão estranho quanto o homem?", chega a perguntar a um monge. Não há resposta. Os jornais dos dias de hoje sustentam o absurdo.

Há uma evidente desfaçatez em tudo o que nos ronda; um cinismo que grassa não apenas na impunidade, mas na certeza de que as coisas são assim mesmo. No passado, por medo do castigo dos céus ou por receio do degredo social, as pessoas pareciam mais comedidas, os malfeitos eram disfarçados. Mas com certeza as pessoas não eram melhores.

Um amigo quer se mudar do Brasil. Diz que não aguenta mais viver entre pessoas que sustentam uma sociedade sabidamente corrupta, sem lembrar que outro dia mesmo se vangloriava de ter comprado um aparelhinho que libera o acesso dele a todos os canais de televisão por assinatura - uma gambiarra.

E o estelionato está por toda parte: no político que prometeu sabendo que não poderia cumprir, no funcionário que saiu 15 minutos mais cedo para não pegar trânsito, no homem comum que procura um lapso para poder ganhar algum sem muito esforço. Mas todos só reclamam do próximo, do absurdo cometido pelo outro.

Mas assim é: o homem é um gado que precisa ser tangido pela Lei. E leis, no Brasil, há muitas. Mas por aqui ela perde uma de suas principais características, que é a inflexibilidade; dura lex sed lex, diziam os romanos - por aqui tem sempre o jeitinho e um magistrado flagrado numa blitz que pune o fiscal com voz de prisão.

Lei existe para dar limites, dizer o que pode e o que não pode ser feito. E pede cumprimento, tanto quanto exige conhecimento. Triste do país em que as leis não podem ser cumpridas por falta de meios, que é envergonhado com o pedido de um criminoso asilado no exterior e que não pode ser extraditado porque o juiz estrangeiro considera que não há boas condições nas penitenciárias brasileiras.

O brasileiro tem orgulho de dizer que é um povo alegre, diferente. Não é. Temos sido uma nação patética, que assiste um escândalo atrás do outro, vai às ruas pedir mudanças e, na primeira dificuldade, volta para casa. E aí temos o conselho do simplório Cândido, no conto de Voltaire: "Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar o nosso jardim".
Tags: celular

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