Brasília-DF,
20/OUT/2017

Cronista comenta as esquisitices do mês de novembro; confira as Crônicas da semana

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Paulo Pestana Publicação:28/11/2014 06:00

Não sei se a zoologia explica, mas eu não tenho dúvida: novembro, em Brasília, é o mês do morcego louco. Tem alguma coisa que provoca pane no radar dos mamíferos e eles saem por aí trombando, caindo, dando rasantes.

Em cima do meu quarto, no sótão, mora uma família de morcegos. São de casa. Inquilinos comportados, exceto quando nascem filhotes, o que provoca uma algaravia incomum. Fora isso, só incomoda o fato de eles frequentarem a jabuticabeira e deixarem as marcas dos dentes nas frutas, mas sem sugar toda a polpa.

Pois não é que outro dia entrou um morcego no meu quarto? E entrou como um cego entraria, batendo nas paredes, se enfiando na estante, caindo no pé da escada de barriga para cima e com dificuldade para se virar. Era um filhotinho, estava aprendendo a voar, acho.

Tenho uma querida amiga que já foi atropelada por um morcego camicase num desses surtos sazonais que acometem os bichos. Ia ela comer uma pamonha, na Asa Norte, quando sentiu o baque. Um morcego errou a arremetida e foi de encontro à testa da minha querida amiga que até hoje não sabe por que não foi detectada pelo radar.

Em outro novembro, um morcego perdido entrou pela janela da casa de um amigo, ex-aluno do Fernando Azevedo no corpo de bailarinos do Teatro Nacional. A primeira reação dele foi um pliê carpado de costas misturado com um padedê; era um movimento único, inédito e que não tinha nome, mas que demonstrou toda a agilidade do ex-bailarino, ao entrar no armário.

Foi difícil para o meu amigo sair do armário. Ele morava no terceiro andar na Asa Sul. Sabe-se lá por que o morcego foi parar na sala, onde se estatelou no chão. Com o restinho de coragem que ainda tinha, meu amigo se esgueirou até o telefone e ligou para o Corpo de Bombeiros. "Pois não", disse o valoroso combatente do fogo na outra ponta da linha. Meu amigo caprichou na descrição do problema, fez um apelo dramático pela presença de homens uniformizados no local, mas não comoveu o soldado. "Meu rapaz, morcego não faz mal a ninguém, deixa que ele sai. Você com essa voz grossa devia saber disso", disse.

Meu amigo apelou: "com voz grossa ou voz fina, eu pago imposto, vocês têm que vir aqui". O bombeiro voltou a argumentar que não poderia deslocar uma viatura para lá e ainda fez pilhéria: "Ainda se fosse o seu gatinho que não conseguisse descer na árvore a gente ia, mas morcego não dá...". Preso no armário, não desistia e tentava argumentar.

O bombeiro foi salvo pela chegada da mulher do meu amigo. Aí ele se transformou: "Quer saber? Não precisa vir mesmo. Minha mulher chegou e vai tirar o morcego daqui, passe bem!" - e desligou. E de fato a moça acabou com a peleja, mas à custa da morte do pobre morcego. Pois o morcego que entrou no meu quarto está vivinho. No dia seguinte cedo, ainda ganhou uma bananinha como desjejum.

 

 

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