Brasília-DF,
21/OUT/2017

Crônicas da semana: "Algumas artes estão sendo sufocadas pelo mundo moderno"

O professor Stephen Hawking saiu de sua casca de noz para radicalizar com uma boa notícia: anunciou que a raça humana será extinta e substituída por máquinas com inteligência artificial.

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Paulo Pestana Publicação:12/12/2014 11:13

Daqui a pouco não teremos mais a figura do tirador de chope, este profissional que tantas alegrias 
nos deu
 (Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Daqui a pouco não teremos mais a figura do tirador de chope, este profissional que tantas alegrias nos deu
Neste caso, a arte morre. Com todo respeito ao professor, é difícil imaginar um autômato que tenha capacidade de compor uma música como a segunda ária da Rainha da noite, da ópera A flauta mágica, de Mozart. Mas é preciso concordar que o mundo ficaria bem melhor sem alguns bípedes.


São outras as artes que já estão sendo sufocadas. Da mesma forma que não encontramos mais um alfaiate craque no caimento e um sapateiro capaz de moldar um couro cromado, daqui a pouco não teremos mais a figura do tirador de chope, esse profissional que tantas alegrias nos deu.

 

A tecnologia acabou com o segredo do creme. As novas máquinas de chope estão sendo equipadas com bicos especiais que desafiam especialistas. Elas fazem tudo sozinhas; e irritantemente bem.

Antes, o tirador tinha que se desdobrar para conseguir a tessitura e a densidade exatas do creme que cobre e protege o líquido gelado; era uma lenha: a manopla era colocada para trás, forçada um pouquinho só à esquerda, até derramar a quantidade certa para chegar ao estado da arte e não dar prejuízo ao patrão. Acabou-se. Hoje qualquer zé mané é capaz de tirar um chopinho decente, como eu mesmo fui capaz de comprovar.

Faz pouco tempo, não era fácil beber um chopinho decente em Brasília. O primeiro bar que realmente se preocupou com a qualidade do que se extraía dos barris foi o finado Chorão, na 203 Norte. Lá era possível beber o produto que a Skol fabricava no Gama — altamente perecível, o chope não pode ser fabricado muito longe do local de consumo. Não pode ser muito sacudido; é uma bebida viva, como o vinho, porque não passa por qualquer processo de pasteurização (como a cerveja) ou fervura (como a ilustre família dos destilados).

Antes do Chorão, o chope brasiliense era um azedume só; maltratava as papilas gustativas e o estômago com um único gole. Ainda assim, não havia investimento no tirador de chope, essa nobre profissão. Claude Capdeville, no seu Toca do Chope, trouxe para Brasília a qualidade do chopinho bem tirado — e servido em tulipas finíssimas. Ébia, diriam os de antanho. Não é preciso tanto, como as robustas calderetas comprovam.

Hoje não é tão difícil beber um bom chopinho, com colarinho caprichado e creme espesso na cidade. E cada qual tem sua preferência. Eu tenho minhas idiossincrasias: só bebo chope depois de verificar se o barril está acondicionado numa câmara fria, que respeite os micróbios que estão nadando no líquido. É assim no Bar do Feitiço, no Baco e no Butiquim do Tuim, da Quituart. E presto atenção no copo: se o líquido liberar muitas bolhinhas nas laterais da caldereta é porque o dito-cujo não está bem limpo; e prefiro recipientes gelados. Lembre-se: quem solta bolha é champanhe.

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