Brasília-DF,
21/OUT/2017

De músicas clássicas à canções populares: carros de som incomodam moradores

O caminhão do lixo reciclado faz a coleta seletiva ao som de Escravos de Jó

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Paulo Pestana Publicação:02/01/2015 07:20Atualização:02/01/2015 10:40
 (Kleber/CB/D. A /Press)
E me lembro de ter lido em algum lugar, há muitos anos, que uma maneira eficiente de torturar alguém é deixar a pessoa ouvindo pingos d’água intermitentes batendo em uma lata. O cabra confessaria qualquer coisa depois de algumas horas. Tive uma experiência parecida quando hospedado por um amigo — a diferença é que o pingo, restinho de chuva, batia numa armação de ar-refrigerado. Não me consta ter ficado mais maluco por isso.

Mas o caminhão do lixo reciclado está para tirar o restinho de sanidade que me resta. Ele vai passando devagar, tocando a mesma coisa: onze notas sequenciais que, juntas, parecem uma contrafação da ancestral cantiga de roda Escravos de Jó — mas só a primeira parte; não chega no jogo de caxangá. E repete, repete, repete.

Aqui cabem parênteses. Não existe e nem nunca existiu um jogo de caxangá, muito menos no templo de Jó, aquele que perdeu tudo — incluindo os escravos —, mas manteve a fé. Caxangá é só o ato de passar um objeto para quem está na roda. E ninguém sabe como uma palavra de origem africana — que significa mata fechada — foi parar no meio de uma cena bíblica. Fim dos parênteses.

Eu gosto da canção; tanto da versão infantil quanto da gravação pilantra que Wilson Simonal cantou na tevê e gravou, simplesmente para mostrar que podia fazer de qualquer coisa um sucesso nacional — até Meu limão, meu limoeiro.

Mas é preciso uma paciência de Jó para aguentar o som que sai do caminhão. É um horror; dá vontade de misturar o lixo seco ao molhado, o plástico com o vidro e jogar tudo para o alto. Eu fico imaginando como se sentem o pobre do motorista e os garis. Acho que eles deveriam ganhar outra compensação por insalubridade, além da que eles já recebem.

Por que tem que ficar martelando essa poluição na cabeça das pessoas? Por que o meu ouvido tem que pagar pela falta de planejamento da empresa que não consegue manter um calendário para a passagem do caminhão como em qualquer lugar civilizado do planeta?  

E não é só o lixo. O caminhão que vende gás é precedido por uma versão de Für Elise que deixaria Beethoven, embora surdo, vermelho de raiva. Dias atrás, deu problema no alto-falante e, desde então, a situação piorou: o som, abafado, parece o de um ganso tentando solfejar a obra-prima do compositor alemão.

E tem o homem que arruma panela, o fruteiro, o velho do queijo, a senhora que vende mel — cada qual acompanhado de seu som específico para blasonar seu produto. E ninguém vende tampão de ouvido.

Sons que vêm da rua não são novidade. Quando criança, adorava ouvir a flautinha que anunciava o sorveteiro e a matraca que era tocada pelo vendedor de biju — ou barquilha, ou taboquinha; o nome muda, mas a matraca não. Gostava até do longo assovio que era a marca registrada do amolador de facas e do chocalho de metal, avisando que chegava o leiteiro. Pensando melhor, acho que só gostava porque era criança.

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