Brasília-DF,
20/OUT/2017

Cronista comenta sobre palavras inventadas e vocabulários regionais

Você sabe o significado de lencar e engricxilar? Confira a crônica da semana

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Paulo Pestana Publicação:09/01/2015 08:00Atualização:09/01/2015 10:11
 (Caio Gomez/CB/D.A Press)
Meu amigo Ari acha que nada pode ficar sem resposta. Quando não sabe, inventa. O Google e a portabilidade dos telefones espertos tentam desmoralizá-lo, mas ele não se faz de rogado; responde tudo, do mesmo jeito, ainda que saiba que pode ser desmentido com alguns cliques. E não consulta o Google; responde na bucha. Dou razão ao Ari: a tecnologia não pode matar a invenção. E para inventar é preciso ir além do óbvio. E ele inventa de tudo. Definições, explicações e até palavras.

Minha mãe, como todas as mães, sabe tudo. Algumas vezes se esquece dos nomes de coisas sem importância. Mas é claro que ela tem uma saída: "Passa pra mim aquele trubisquinho, por favor". O pessoal da família já sabe que trubisquinho é qualquer coisa que está à frente dela, na mira dos dedos. Os menos íntimos ficam procurando, pensando e se perguntando se ela está batendo bem.

É preciso ser goiano para saber o que é lencar. É um verbo local, restrito. Hoje o significado é mais amplo e serve para definir qualquer falha, mas a origem está nas armas de fogo: quando se ouve o barulho do gatilho e a bala não sai do tambor é porque lencou - é o mesmo que dar chabu, no caso de fogos de artifício.

Dia desses aprendi uma nova palavra: engricxilar. Bem, a grafia ainda não sei - pode ser até engrikcilar, agora que o k voltou. Tem várias utilidades, desde que seja numa confusão: "está tudo engrikcilado por aqui, ninguém sai do lugar". "Essa máquina engrikcilou". E por aí vai, 1001 utilidades, como aquela palha de aço.

O fato é que para inventar uma palavra não é preciso ser um Guimarães Rosa ou um Manoel de Barros; não é preciso procurar raízes no léxico ou adaptar um verbete estrangeiro, como ficou notório no verbo afrancesado defenestrar, que é o ato de jogar alguma coisa pela janela. se for pela porta não serve; tem outro nome.

Muitas vezes a culpa dessa confusão é das próprias palavras. como é que um verbo como desferir pode ser usado para caracterizar um golpe violento e, ao mesmo tempo, para definir a emissão de sons harmônicos? uma coisa não elimina a outra?

O mal uso de expressões também ajuda na pendenga. hoje se usa figurinha carimbada para todo fato corriqueiro - uma pessoa que frequenta muitas festas, por exemplo. não pode ser, uma vez que a origem está nos antigos álbuns de figurinhas, que davam prêmios - brinquedos, eletrodomésticos - a quem completasse uma página. a figurinha carimbada era a mais difícil, quase impossível de ser encontrada.

E tudo tem nome, mas a gente não sabe o nome de tudo. todo mundo sabe que o dedão da mão se chama polegar, mas nem todos sabem que o dedão do pé se chama halux. O que, na hora da topada, não faz a menor diferença. É como chamar temporal de bátegas d’água; com um ou outro, o seguro não paga o prejuízo. Fica sendo toró mesmo.

COMENTÁRIOS

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patricia 23 de Janeiro às 15:50

Excelente! Algumas palavras me deixaram encafifada.

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