Brasília-DF,
21/OUT/2017

Cronista retrata a relação de uma dona de bar com seus clientes

De forma leve colunista fala sobre a rotina de uma mulher pragmática

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Paulo Pestana Publicação:23/01/2015 07:00Atualização:23/01/2015 11:43
 (Arte/CB/D. A Press)
O espetáculo é oferecido diariamente ao brasiliense, quando o céu está claro. O Sol vermelho cai no horizonte provocando êxtase nos transeuntes e desespero nos motoristas que recebem os raios diretamente nos olhos. Mesmo com a paleta abaixada, é impossível enxergar alguma coisa com clareza.

Naquele dia particularmente, sombras e clarões se confundiam. O carro seguia devagar, abaixo da velocidade da pista que atravessa todo o Lago Norte quando um pequeno vulto cruzou repentinamente a frente do automóvel e ouviu-se o baque seco. Havia pouca gente na rua. Quase ninguém. Com o susto, só foi possível frear alguns metros à frente. O vulto ficou para trás; imóvel.

Enquanto desatava o cinto de segurança e descia do carro, Baixinha pensava no que poderia ser. Não era gente; muito pequeno o vulto. Imaginou que poderia ser um cachorro. Imediatamente se lembrou da cidade natal, varada pela BR-040, onde cães são atropelados todos os dias. Não podia ser. Era um gato, tinha que ser. O destempero e a irresponsabilidade são inerentes aos felinos domésticos que, confiando na agilidade e velocidade, não se dão ao trabalho de olhar para lado nenhum quando atravessam uma rua. Claro que era um gato.

Baixinha é uma mulher pragmática. Batizada Ivanise dos Santos, carrega em si a santa fúria das mulheres miúdas. Ela é proprietária e administra o No Grao, boteco que fica na última comercial da faixa central da pista do Lago Norte. Bar democrático, reúne ministros, desembargadores, jardineiros e militares de alta patente. Ela tem, portanto, qualificação para enfrentar todo tipo de gente, selvagem ou domesticada, ainda que alcoolizado. Baixinha tem aquela autoridade, rara hoje em dia entre os donos de boteco: nega a última dose a um cliente embriagado. E toma as chaves do carro de quem ela considerar que não pode dirigir.

No bar da Baixinha o consumo ainda é anotado à moda lusitana, num caderno cheio de garranchos; dali ela controla tudo, mesmo nos dias em que o estabelecimento está lotado, o que acontece nas rodas musicais de domingo à noite. Ela já estava fora do carro e a primeira reação foi ver se o parachoque do carro estava amassado. Não estava; tudo em ordem. Deu passos para trás e foi ver o que jazia no asfalto quente. Não havia sangue e Baixinha limpou os óculos antes de seguir em frente: era uma penosa, na verdade uma galinha d’Angola, um capote, como se diz da Bahia para cima.

Baixinha olhou para os lados à procura de alguém que pudesse dizer de onde tinha vindo a ave; não encontrou. Ela não podia esperar mais. Tinha saído para entregar uma pizza e carrega o orgulho de nunca entregar comida fria. Passou a mão na penosa, colocou no banco de trás do carro, entregou a encomenda e voltou para o bar. Assim que chegou, ligou para os clientes mais próximos: hoje tem capote, anunciou. Cortesia da casa e ao molho pardo. Não deu pra quem quis. Da próxima vez a turma está torcendo para que ela atropele um cabrito.

COMENTÁRIOS

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patricia 23 de Janeiro às 15:25

Assim que eu for à Brasília quero conhecer a Baixinha e o seu bar. Achei bem divertida a leitura. Parabéns!

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