Brasília-DF,
17/OUT/2017

Crônica da semana destaca o fim da publicação dos almanaques de farmácia

Os almanaques são parte da vida brasileira há décadas

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Paulo Pestana Publicação:06/02/2015 06:40

Procurei em farmácias, armarinhos, laboratórios e clínicas. Olhei por todo tipo de comércio, até entre linhas e agulhas de um armarinho. Já estamos no segundo mês do ano e a constatação óbvia e inapelável é que eles sumiram mesmo. Os almanaques de farmácia morreram.

É como se tivesse sido decretado o fim de uma era. Os almanaques são parte da vida brasileira há décadas, com a importância destacada por Machado de Assis — para ele, “toda oficina da vida” —, Monteiro Lobato, criador do Jeca Tatu, e outros intelectuais. Séculos atrás, era em almanaques que Nostradamus exibia sua erudição e as temidas previsões.

O biotônico Fontoura resiste nas farmácias com toda a ortodoxia de seu rótulo e a promessa de reforçar bíceps e tríceps, mas o almanaque que levava seu nome, coitado, morreu de inanição. A publicação chegou à fabulosa tiragem de 170 milhões de exemplares.

O fato é que folhinhas não bastam e agendas estão cada vez mais obsoletas. E ninguém quer saber de bula. Só restam os argentários catálogos de ofertas deixados nas portas dessas drogarias, que hoje vendem de tudo, até remédios.

Os velhos almanaques não eram exclusividade de farmácias; havia anuários comerciais, o almanaque do fazendeiro e outros que eram vendidos, como o Eu Sei Tudo. Mas quem entrou para a história foram os esmerados almanaques produzidos pelos laboratórios farmacêuticos.

Eram lidos com avidez; havia de tudo um pouco e, numa época de pouca informação, era como se abrisse um mundo novo. Num deles, por exemplo, descobri que os botões inúteis das mangas dos paletós foram colocados ali a mando de Frederico, o Grande. E não tem nada a ver com moda: era para evitar que os soldados, porcos, limpassem o nariz na manga.

Havia tudo sobre as sete maravilhas do Universo, descrição dos astros, os santos de cada dia do mês, contas malucas de matemática, piadas, origem das palavras e costumes — inclusive alguns em desuso, como o ato de, eca!, cuspir no chão para flertar com garotas, lá por 1700.

Mais recentemente essas publicações tiveram um sucedâneo que era distribuído aos passageiros de uma empresa aérea. Era o Almanaque Brasil, criado pelo artista gráfico Elifas Andreatto, que radicalizou nos temas, se dedicando à cultura e aos costumes brasileiros. Sumiu também.

Perguntei para a aeromoça; sorriu, fez cara de quem não está entendendo nada e ofereceu outra revista de bordo, nada interessante. O fim da cultura de almanaque encerra papos deliciosos, repletos de informações absolutamente inúteis, mas que fazem a vida bem mais interessante. Com a onipresença do Google, a cultura inútil é o que nos resta para brincar com a sede de conhecimentos que sempre movimentou o mundo e a sofomania que cada um de nós carrega em si. Concordo: a maioria do que está em almanaque não serve para nada. Mas se não fossem por eles, por exemplo, eu nunca saberia que a primeira gravação do Hino Nacional Brasileiro foi feita na Alemanha por uma orquestra inglesa, em 1901. Como viver sem informações como essa?

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