Brasília-DF,
18/OUT/2017

Crônica: música na rua promove encontro entre diferentes gerações

A música na rua realmente amadora, onde ninguém ganha nada além do prazer de participar, é uma instituição brasileira

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Publicação:17/04/2015 08:00

Faz tempo que a polícia parou de descer bordoada nos músicos que tocam na rua. A pena, convenhamos, era dura demais até para quem insiste em atrapalhar as rodas de choro e samba com escassos dotes de instrumentista. Mas a música na rua realmente amadora, onde ninguém ganha nada além do prazer de participar, é uma instituição brasileira. Foi assim na peixaria; se mantém com a Turma do Gambá e na roda do Grao.

Os músicos são quase sempre os mesmos. Mas quem chega é sempre bem-vindo, desde que não pisoteie o compasso e não pisque para mulher que já tem dono. Era neste clima previsível que a roda do Grao, bar do Lago Norte, seguia naquela noite de domingo. Contudo, como diz a canção, algumas vezes o inesperado faz uma surpresa.

Quem estava de frente viu o jovem senhor chegar; quem estava de costas ouviu uns acordes diferentes, encorpados, dissonantes. Com um violão de sete cordas, ele conseguiu um microfone e começou a cantar. As rosas não falam, do Cartola; na sequência, Água de beber (Tom e Vinicius) e, depois, para comprovar que nem só de clássicos se vive, tirou um samba do fundo do baú de emoções íntimas: A dona do primeiro andar, imortalizada pelos Originais do Samba.

As pessoas se perguntavam quem seria o novato de voz tão macia, divisão impecável e som imponente que conseguiu fazer o silêncio imperar sobre a habitual balbúrdia da varanda que nos protege do sereno. Pouquíssimos ali sabiam que estavam diante de um sujeito que pode ser tudo, menos anônimo, e ganha a vida gravando discos e cantando por alguns dos teatros mais requisitados da Europa.

Era Márcio Faraco, um desses brasileiros que insistem em levar adiante as tradições da nossa música popular. Morando em Paris, ano passado lançou Cajueiro, seu sétimo disco — que nós, no Brasil, só podemos comprar em dólares ou euros — onde ele traça um pequeno e consistente compêndio da nossa canção.

Havia um motivo para Faraco estar ali; ele é filho do coronel Índio, que depois de deixar a caserna se dedicou ao violão de sete cordas e é um dos mais assíduos e queridos músicos da roda do Grao. Ele tem como característica levantar-se da cadeira quando sola, à moda das grandes orquestras de jazz. E arranca aplausos da turba a cada intervenção.

Ninguém esperava que, na visita ao pai, ele fosse dar uma canja, se igualando aos amadores, sentando à mesa como se estivesse sempre por ali. O amor à música tem esse poder; iguala os desiguais. Desafinados fazem coro, músicos se inventam, pés-duros valsam e passantes param.

Márcio Faraco é um profissional; compositor refinado e respeitado, fez turnês pela França, Canadá, Polônia e outros países. Mas ali não impôs nenhuma superioridade; sequer cogitou de cantar uma de suas canções. Depois de dar seu recado, sentou-se em outra mesa com a família e ficou ouvindo o pai e seus amigos, aplaudindo, fazendo coro — não estava ali para abafar ninguém. Só queria mostrar que faz samba também.
Tags: celular

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